A arremetida nuclear

Clecy Ribeiro


Quem mais ilustra o tema nuclear ainda hoje é, sem dúvida, Henry Kissinger. Trata-se de um pensador, no estrito significado da palavra. Pensa o equilíbrio nuclear na era do terror e destruição mútua, pensa reconfigurar a equação de poderes e controlar a proliferação nuclear.

Conselheiro de política externa da Casa Branca de 1968 a 1976, negociou os Tratados de Não-Proliferação Nuclear, de Limitação das Armas Estratégicas e do controle de mísseis balísticos. Dentre um sem-número de obras, destaca-se Nuclear Weapons and Foreign Policy, 1957. Continua influente no establishment.

Alguns o consideram "pau de dois bicos". Outros o alinham a George Shultz (secretário de Estado 1982-1989), William Perry (secretário de Defesa 1994-1997) e Sam Nunn, ex-presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado), alcunhados Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Uma personificação simbólica do final dos tempos – morte e devastação. Porque, em consenso, reconhecem que a disseminação acelerada das armas, tecnologia e materiais nucleares atingiu o ponto de alerta. "Nós quatro, ora apoiados por muitos outros, nos unimos em apoio a esforços globais para reduzir a credibilidade em armas nucleares, evitar sua disseminação em mãos potencialmente perigosas e, por fim, acabar com elas, como ameaça que são ao mundo..."

Sob o espectro do terror, o cair em "mãos erradas", bandeira de cunho psicológico constante na política externa, Washington reforça sua posição. William Perry, em relatório da Comissão de Postura Estratégica (maio 2009), deixa claro: "Agir em dois caminhos paralelos. Um, para reduzir o risco nuclear, mantendo nosso arsenal dissuasivo. Outro, para reduzir o risco nuclear através de controles de armas e programas internacionais antiproliferação".

Mas há sempre um mas... Essa advocacia, que pretende manipular a percepção do público, toma rumo inverso. O ciclo dissuasão cede ao ciclo difusão. Difusão da tecnologia nuclear; dos problemas de vistoria da Agência Internacional de Energia Atômica; dos efeitos da política externa de países como o Irã, Coreia do Norte, Índia, Israel, Paquistão; das ideias de aspirantes não-governamentais (redes e grupos armados). O autor Bates Gill, do Instituto Internacional para a Pesquisa da Paz, em Estocolmo, evoca, inclusive, a difusão ilícita, envolvendo gente, bens, tecnologias e capital. À sombra dos argumentos sobre o uso pacífico da energia nuclear, ganha dimensão o aspecto dual. O despreparo para lidar com os "envolvimentos" amplia-se a outras tecnologias de uso dual (biologia, genética, nanotecnologia), passíveis de "armamentização".

Muitos países "em vias de" já começam a adquirir capacidade nuclear, desdenhando os Estados Unidos. Os que a detém, exportam. China, Japão, Rússia e Coreia do Sul espreitam a África, ora definitivamente investindo na construção de usinas nucleares, para suprir uma carência de consumo que beira o inaudito. A França oferece assistência ao Senegal. A busca nuclear africana estende-se à Argélia, Egito, Gana, Quênia, Marrocos, Tunísia e Uganda, respondendo à crescente alta de custos dos combustíveis e energia elétrica. Pioneira, a África do Sul arremete de duas para oito usinas até 2023. E ajuda o Níger, produtor de urânio, enquanto a Nigéria, faz uns dois anos, voltou-se ao Irã para assistência técnica. Eis aí uma visão apressada do que vai pelo "mundo nuclear".

No reino dos especialistas, descrédito total. O "expresso nuclear" em movimento gera apreensões (Coreia do Norte), ansiedades (Irã), suspeitas (Síria, Myanmar, Arábia Saudita, Turquia), pressões (Conselho de Segurança da ONU, Grupo dos 20, Otan, Agência Internacional de Energia Atômica e outros). O Tratado de Não-Proliferação e a Conferência de Desarmamento fogem a qualquer consenso sobre não-propagação e controle de armas. Nem mesmo sabem como lidar com países fora do regime. Ou mesmo com questões envolvendo segurança, quando a energia nuclear torna-se uma opção cada vez mais atrativa para muitos mais.

Grata exceção à regra será, talvez, o programa nuclear brasileiro, um dos mais avançados do mundo (tal como o da Argentina, no continente), ao largo de suspeitas ou críticas. Contudo, tem também potencial como instrumento de política externa, até porque, conforme as diretrizes do país: promover a multipolaridade do sistema mundial e tornar-se um dos grandes.
Como orçar o custo da investida nuclear? Em seu uso militar, garante a paz, pela intimidação, ou leva à guerra, pelo temor de ataque? Em seu uso pacífico, garante o necessário fornecimento de energia, promove democracia e cooperação internacional?

Em artigo publicado em 2006, Philip E. Coyle, secretário assistente do Pentágono (1994 a 2001), avalia limites e obrigações do sistema de defesa escudado em mísseis, e conclui: a diplomacia é a melhor defesa. Cético, ressalta a inutilidade de mísseis contra carros-bomba, dispositivos explosivos e outros, e lembra que, em 1999, William Perry fez uma série exaustiva de viagens diplomáticas para convencer a Coreia do Norte a deter seu programa de mísseis. Um sucesso surpreendente. Tanto quanto a reação do Pentágono: "Lá se vai a ameaça!"

Sem ginetes, montados em relatórios e negociações, os Quatro Cavaleiros do Apocalipse dos tempos atuais (pre)ocupam-se sobretudo com custos financeiros. Manter um arsenal nuclear modernizado, consistente com a liderança norte-americana e seus objetivos de não-proliferação, redução de riscos e metas de redução de armas. O que tende a provocar a atualização das forças nucleares de outros do clube. Assim, com novas conotações, prossegue a difusão. Assim, o tema extrapola a pura esfera militar; vincula-se definitivamente à diplomacia.

 

(A autora é é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso, RJ)

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