A arte de doutrinar

Cesar Damião Torres da Silva

A palavra arrepender, usada por Jesus, significava mudar de rota, rever a vida

Em seu livro Nunca Desista dos seus Sonhos o cientista, psicólogo e psicanalista brasileiro Antônio Cury descreve a capacidade de doutrinar de Jesus Cristo da seguinte forma: “Seu discurso era contagiante. Seus ouvintes ficavam eletrizados. As pessoas que o ouviam ficavam perplexas. Ele proclamava: Arrependei-vos...”

A palavra arrependimento usada por Jesus explorava uma importante função da inteligência. Ela não significava culpa, autopunição ou lamentação. No grego ela significa uma mudança de rota, revisão de vida.

Jesus queria que as pessoas repensassem seus caminhos, revisassem seus conceitos, retirassem o gesso de suas mentes. O Mestre dos Mestres discursava sobre um reino que estava além dos limites tempo-espaço. Um reino onde habitava a justiça, onde não havia classes sociais, não existia discriminação.

Ensinava que em seu reino as relações seriam completamente diferentes das que existem na sociedade. O maior não é aquele que domina, tem mais poder político ou financeiro, mas aquele que serve.

Jesus vivia numa época de terror. Tibério César, o imperador romano, dominava o mundo com mão de ferro. Para financiar a máquina administrativa de Roma, pesados impostos eram cobrados. A fome fazia parte do cotidiano. Não se podia questionar. Todo motim era debelado com massacres. O momento político recomendava discrição e silêncio...

Era nesse vendaval de ruínas e desilusões que Jesus, o Cristo, se encontrava. E com coragem levava a todos o que eles mais precisavam, que eram a verdade e a esperança em tempos melhores. Não combatia Roma. Doutrinava levando ao povo momentos de paz, de reflexão sobre a vida, lapidando-os com seus ensinamentos.

Jamais desferia aos seus semelhantes palavras ferinas. A todos tratava com ternura e respeito, ciente de que cada um só pode dar o que possui. Dizia a verdade embalada no amor ao próximo. A todos sacudia sem magoar, sem menosprezar, incentivando-os a ser tolerantes e a respeitar um ao outro. Não fazia diferença entre o homem e a mulher e mencionava a importância da família e da educação dos filhos.

Jesus doutrinava respeitando o livre-arbítrio dos seus semelhantes. Doutrinava sobre a liberdade de escolha, de construir caminhos, de seguir a própria consciência.

Pairava sempre em seus ensinamentos a liberdade de escolha. Ensinava a todos lidar com suas emoções e gerenciar seus pensamentos. Ensinava sempre a importância da humildade e a capacidade de perdoar, no significado grego, enfim, a sabedoria de expor e não impor as idéias em relação ao semelhante, ao amor pelo ser humano e por Deus, o Grande Foco de Luz.

Sabia Jesus, pelo seu alto esclarecimento, que o perdão como um passe de mágica a fazer sumirem todos os maus atos praticados não existia. E usava com maestria as palavras, ressaltando a necessidade de as pessoas praticarem o bem, elevarem os pensamentos às alturas e deixarem de praticar o mal para poderem alcançar o  reino dos dignos.

O Mestre da vida vivia o que discursava. Não impedia as pessoas de abandoná-lo, de traí-lo e nem mesmo de negá-lo. Nunca houve alguém tão desprendido e que exercitasse de tal forma a liberdade e a compreensão.

Estava Jesus Cristo, naquela época, plantando os mais belos ensinamentos, que muitos anos depois seriam condensados em plano astral por Antonio Vieira e a Plêiade do Astral Superior, para ressurgirem na Terra através de Luiz de Mattos e Luiz Tomaz e serem consolidados por Antonio Cottas. Era uma bela semente, hoje explanada e difundida pelo Racionalismo Cristão.

Esse Mestre, que andava com uma túnica e de sandálias, combatia, por suas palavras, gestos e ações, a vaidade. De forma simples e corajosa nos demonstrava que doutrinar não é subir em saltos altos e se achar dono da verdade.

Jesus deixava claro por seu comportamento que o semelhante precisava de compreensão, apoio e o exemplo de quem fala para servir de verdade a ser seguida. Esta nobre lição é o que ensina nossa filosofia em seu livro Prática do Racionalismo Cristão, no capítulo VI, denominado  Normas e Orientações. Nesse texto, a Doutrina deixa clara a importância do cumprimento do dever dos seus militantes quando diz que: o primeiro dever dos membros das casas racionalistas cristãs é dar exemplos, em todos os atos da vida, da prática dos princípios que aprenderam na Doutrina.

Por ser uma filosofia cristã, cultiva os ensinamentos do Mestre, demonstrando a todos a importância da humildade, da disciplina, do respeito e da verdade, mencionada com ternura, clamando a todos (no mesmo livro) ao equilíbrio de si mesmos, para que possam doutrinar aproximando-se ao máximo do Mestre dos Mestres, quando diz: Não sejamos indelicados se pudermos ser atenciosos; cuidemos de não ser importunos desde que possamos ser discretos; não sejamos intolerantes, mas compreensivos; não demonstremos sapiência, e sim modéstia; e não sejamos instrumentos de mágoas, mas mensageiros de palavras amigas e reconfortantes.

Que belos ensinamentos a serem seguidos! E é por isso que afirmamos: o Racionalismo Cristão é uma filosofia para o nosso tempo.

(O autor é Militante da Filial Belo Horizonte, MG)

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