A cigarra e a formiga coroca

Você conhece a fabula da cigarra e formiga? Fábula é uma narrativa em que os animais ganham características humanas e sempre, ao final da história, há uma lição, uma moral.

A fábula conta que estava a cigarra, saltitante, a cantarolar pelos campos, quando encontrou uma formiga que passava carregando um imenso grão de trigo.
– Deixe essa trabalheira de lado e venha aproveitar este dia ensolarado de verão – disse a cigarra.
– Não posso. Preciso juntar provimentos para o inverno e recomendo que você faça o mesmo – respondeu a formiga.
– Eu, me preocupar com o inverno? – perguntou a cigarra. “Temos comida de sobra, por enquanto”, disse. A formiga, porém, não se deixou levar pela conversa da cigarra e continuou o seu trabalho.

Quando o inverno chegou, a cigarra não tinha o que comer, mas as formigas dispunham dos alimentos que haviam guardado. Morrendo de fome, a cigarra foi bater à porta do formigueiro, onde foi acolhida pelas formigas.

*      *      *

Veja, agora, outra versão dessa história, contada pelo escritor brasileiro Monteiro Lobato em Reinações de Narizinho. A turma do Sítio do pica-pau amarelo, em uma de suas aventuras, se encontra com o senhor de La Fontaine, grande fabulista. Ao rever a história da cigarra e da formiga, a boneca de pano Emília, que não é boba nem nada, interfere para não deixar que a formiga rabugenta maltrate a pobre cigarra. A história da cigarra e a formiga coroca ficou assim:
(...)

A célebre cigarra tuberculosa, que tossia, tossia, tossia, vinha chegando, embrulhada no seu xalinho esfarrapado. Parando à porta do formigueiro, bateu.

Instantes depois, apareceu uma formiga coroca, sem dentes, com ares de ter mais de mil anos. Era a porteira da casa e rabugenta como ela só. Abriu a porta e disse, na sua voz rouca de séculos:

– Que é que a senhora deseja?

Vendo tanta cara feia, a pobre cigarra quase desmaiou de medo e foi tomada de outro acesso de tosse. Nem podia falar. Em vez de sentir piedade, a formiga fechou ainda mais a carranca e disse:

– Errou de porta, minha cara. Isto aqui não é asilo de inválidos. Se está doente, vá para a casa do seu sogro.

E, plaf!, deu com a porta no nariz da cigarra.

A triste cigarra, com o nariz esborrachado, ia pendendo para trás para morrer, quando Emília a susteve (segurou).

– Não morra, boba! Não dê esse gosto para aquela malvada. Está com fome? Vou já trazer um montinho de folhas. Está com frio? Vou já acender uma fogueirinha. Em vez de morrer, feito uma idiota, ajude-me a preparar uma boa forra contra a formiga.

(...) Emília mandou que a cigarra batesse na porta outra vez. A cigarra obedeceu, batendo três toc-tocs. Veio a formiga espiar quem era. Dando com a mesma cigarra, disse-lhe um grande desaforo e já lhe ia batendo com a porta no nariz outra vez quando Emília a agarrou pela perna seca e a puxou para fora.

– Chegou tua vez, malvada! Há mil anos que a senhora me anda a dar com essa porcaria de porta no focinho das cigarras, mas chegou o dia. Quem vai levar porta no nariz és tu, sua cara de coruja seca!

O Sr. de La Fontaine teve de pedir para Emília parar, senão a formiga morreria e isso estragaria a sua fábula.

A moral das histórias é a seguinte: assim como a cigarra não pode passar o verão cantando sem trabalhar, as formigas também não podem negar ajuda. Isso não é fazer bem ao semelhante.

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