A corrupção política no Brasil

A propósito da prisão de Caillaux...

A Razão publicava em 16 de janeiro de 1918

A prisão de Joseph Caillaux não é um fato que interesse apenas à vida da França, até porque basta ter ocorrido nesse centro luminoso da civilização para atrair a atenção de todos os povos cultos. Aliás, a própria fama de que gozava, no bom e no mau sentido, fora das fronteiras de seu país, aquela estranha personagem daria a esse sucesso, em qualquer tempo, repercussão mundial. Misto de diplomata, parlamentar e estadista e de aventureiro, farsante e egoísta, sempre alvo de acusações gravíssimas e envolvido em incidentes escandalosos por entre as altas posições que conquistava com fino talento e em que se equilibrava com infinitas astúcias, viajando de vez em quando para escapar a terríveis campanhas e encaminhar novas transações, o famoso político francês era bem uma triste celebridade universal.

O seu nome atingiu a maior evidência com o assassinato sensacional de Calmette. De certo, todos ainda se lembram desse caso singular em que o amor ao luxo por uma formosa mundana, aliado ao delírio das grandezas em um homem público, explodiu numa tragédia tormentosa cujos ecos só o troar dos canhões veio abafar. O inditoso editor do Figaro movia, nas colunas prestigiosas do grande quotidiano, tenacíssima oposição a Caillaux, então, em todo o esplendor à frente do governo, acusando-o de promover colossais negociatas à sombra da influência do seu cargo. Temendo que o destemido jornalista, conforme prometera, publicasse documentos comprometedores de seu marido, de forma a provocar-lhe, com a queda do respectivo gabinete, o fim da própria carreira, madame Caillaux matou-o a tiros, dentro da redação, num momento de desvario. Como o seu julgamento coincidisse com o início da guerra, pôde ela escapar às mãos da Justiça, graças aos admiráveis sentimentos de solidariedade que, gerando a 'união sagrada' dos franceses, os obrigaram a esquecer os ressentimentos íntimos.

Aproveitando-se do novo estado de espírito que dominava os seus patrícios, Caillaux procurou reconquistar-lhes as simpatias e, através de importantes comissões que habilmente obteve, fingiu colaborar com os dirigentes da França na obra de resistência nacional ao inimigo invasor. Mas essa dedicação aparente à causa patriótica nada mais era que um outro embuste para desenvolver os seus instintos rapaces. Não tardaram a ser descobertos os seus intuitos verdadeiros, sendo-lhe atribuído até um entendimento abjeto com agentes alemães no sentido de lhes favorecer os interesses infames na própria pátria.

Mas até agora Caillaux, de pé, resistia a todas as acusações. Eis, porém, que informações enviadas dos Estados Unidos ao governo francês, indicando os seus passos quando, em 1915, esteve na Argentina, de onde entrou em confabulações com a Wilhelmstrasse, por intermédio do também famoso conde de Luxemburgo, a fim de encaminhar a conclusão urgente de paz e a apreensão do cofre forte que tinha em Florença, contendo cerca de 2 milhões em títulos, valores e jóias, certamente fruto de sua traição, além de comprometedora correspondência política e graves documentos militares, determinaram a prisão imediata do ex-chefe de gabinete. Recolhido hoje às grades da Santé, aí aguarda ele o desfecho lógico de sua vida de torpe vendilhão que começou vendendo a consciência e acabou vendendo a pátria.

Ora, esse fato nos deve servir de lição. Infelizmente a corrupção política lavra no Brasil de uma forma espantosa. Os casos contínuos de defecção partidária são um dos mais alarmantes sintomas desse mal. Basta haver uma contradança dos grupelhos pessoais que exploram os negócios públicos por esses Estados afora, para que indivíduos corridos pela lepra da vil ganância, às vezes portadores de diplomas científicos ou encarregados de melindrosas funções abandonem os companheiros da véspera e se alistem nas fileiras adversas a troco de qualquer sinecura. Não há qualquer exagero nestas palavras. Quantos leitores não suspenderão os olhos delas para aprová-las com um gesto de cabeça, lembrando os nomes de alguns desses desgraçados!

Mas esse ainda não é o pior aspecto da tremenda calamidade. Há a considerar os infiéis mandatários da soberania popular, que aproveitam da sua posição para mergulhar as mãos criminosas nos cofres públicos lucupletando-se com o produto das rendas arrancadas aos pobres contribuintes. São os deputados e senadores negocistas, os ministros e governadores aladroados, os intendentes e prefeitos venais que, por meio de concessões ou favores a amigos e empresas, emendas orçamentárias, leis pessoais, avisos reservados, comissões clandestinas e outras mil formas de "avança" no erário federal, estadual ou municipal, nos roubam a todos quantos, direta ou indiretamente, estamos sujeitos a esses aparelhos de sucção do trabalho alheio.

Ora, o indivíduo que trai o seu partido, as suas funções ou o seu mandato, não vacila em trair também a sua pátria. O primeiro passo na traição precipita-o num despenhadeiro sem fim. Se a consciência não lhe falou logo, não há mais como ouvir-lhe a voz. Pois que ele vendeu uma coisa concreta, como é um lugar na administração ou uma cadeira no parlamento, de cuja existência se convence através dos seus proventos em moeda corrente, por que não há de vender igualmente essa ficção que é a pátria para as almas de tal jaez, visto que não a sentem no conjunto ideal que faz dela a mais bela realidade?

Aí está bem vivo, palpitando debaixo dos nossos   olhos, através das linhas incisas dos despachos telegráficos, o exemplo de Caillaux rolando ao fundo negro de uma prisão, depois de ter brilhado nos mais altos postos da política francesa, por tentado fazer com os destinos do seu país o que fez com sua cadeira de deputado, a sua pasta de ministro e todos os cargos que exerceu na sua carreira – vendê-los ao ouro do próprio inimigo. É já isso, afinal de contas, um grande resultado moral da grande guerra, que há de ser o cadinho purificador dos povos envolvidos nela, expelindo de seu seio os elementos deletérios e acrisolando as virtudes próprias das nações fortes. Entretanto é precisamente quando resolvemos participar do formidável ciclo de fogo, formando ao lado das nações empenhadas nessa obra de regeneração, que se pretende dar ao Brasil o domínio de um grupo político notável pela sua falta de escrúpulos no manejo dos negócios públicos, sacrificando sempre aos próprios interesses os interesses coletivos, com uma sem-cerimônia que toca as raias do cinismo e uma ganância que não recua nem diante do crime.

Mas não queremos crer que venha desabar sobre nós semelhante desgraça. Temos fé ardentes nos nossos destinos, aliados hoje mais do que nunca aos da França imortal. É impossível tanta incoerência entre a sorte de duas nações ligadas para a vida e para a morte.

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