A eterna corrida do homem ... para onde?

Clecy Ribeiro

Os impérios chegam ao fim, clamam os acadêmicos. Fim dos impérios, mas começo de quê? Os anos de transição parecem intermináveis. Alguns falam em transições inconclusivas. O maior acesso à informação provocou mudanças incríveis. Novos meios de comunicação subvertendo o comportamento social: maneiras de falar, ouvir, ler, escrever, consumir, relacionar-se com os demais. E pensar. Cultu­am-se a velocidade, individualismo, desligamento. Uma identidade virtual

Concomitante, monótona e exaurida pela repetição, arrasta-se a ladainha dos fenômenos atuais. No topo, a corrosão do meio ambiente, a superpopulação e seus efeitos, uma corrida da humanidade contra si, com degradação dos sentimentos e ruptura das tradições. Sobretudo as relações em família, pilar mesmo da sociedade.

Nada que o mundo desconhecesse desde priscas eras. que, agora acelerados, exacerbados, os excessos cometidos pelo homem contra valores consagrados ainda transitam por este começo de século, após dez anos tidos como de extremos. E ninguém sabe ao certo aonde chegar.

Progresso tecnológico chama mudanças sociais. Quase sempre acompanhadas de sofrimento e inconvenientes. Serão estes inevitáveis? Ou reduzíveis? A modernidade, pregam pensadores contemporâneos, traz tradições reinventadas, porque a sociedade precisa delas. Contudo, prevalece na maioria dos países ocidentais uma sociedade que vive do lado oposto da natureza e da tradição. As mudanças em curso voltam-se à vida pessoal: sexualidade, relacionamentos, casamento, família. Atingem o cerce emocional e, com frequência, privam o homem de maior discernimento. Ele tende, assim, a perder um sentido de si próprio estável. Por outro lado, o descentralismo no sentido do universalismo daria um sentido estável à sociedade.

Em meio a tanta incerteza, dúvida, indefinições – e pressa –, vai escorregando o complexo processo da decantada globalização. Atua interconectando mais e mais o mundo, contudo ainda em descontrole. Gera, então, conflitos de identidade oriundos da difusão, sobreposição e interpenetração de formas distintas de vida. Identidades nacionais em declínio, identidades híbridas ganhando espaço.

Globalização, diz o pensador britânico Anthony Giddens, implica um movimento de distanciamento da ideia sociológica clássica de “sociedadecomo um sistema bem delimitado, mas envereda sempre pelos direitos humanos, democracia, ampliação das influências além fronteiras. Nada de novo, até , exceto pela aceleração e impacto de seus efeitos, ao longo do tempo e do espaço, marca registrada destes anos de transição.

Com seu olhar crítico, desdenhosa do tedioso tradicional, é a juventude, principalmente nos séculos XIX e XX (quem recorda as revoltas de 1848 e 1871 e maio de 1968?) que arca com o ônus contestatório. Algo está podre no Reino da Dina­marca, e em outros reinos. Desmorona-se o mundo, mas nãoum outro mundo à frente. O desenvolvimento da ciência e tecnologia ajuda o despontar do novo cenário a partir dos anos 1960, de questionamento da sociedade ocidental e acenando contravalores que passam a envolver até sexualidade. A “revolução” no universo feminino (com antecedentes no século XIX) marca a passagem da grande família patriarcal para a família restrita. Giddens consequências profundas para a sexualidade masculina. Uma “revoluçãoinacabada. “Nós, as mulheres”. “Chegou a nossa vez”. Floresce a homossexualidade, masculina e feminina, apoiada no livre-arbítrio sexual. “É proibido proibir” – a inscrição domina o Teatro Odeon, na greve geral de maio 1968, em Paris.

Fundada no estresse econômico e na desintegração, a falência da família tradicional não permite volta. E abre-se intenso debate sobre a intimidade.

Sob a globalização, tradições e comportamentos ao abandono,  transforma-se boa parte do que costumava sernatural”. Que lições sobram, assim, do século XX? Tudo atenta contra a natureza. Que nem é inesgotável nem passiva. Conseguirá acomodar-se após o abalo de suas falhas tectônicas sociais?

Para o despertar do mundo novo de Huxley, os fins almejados implicam a supressão do mal na fonte, ou seja, na vontade do indivíduo. “O que pensamos determina o que somos e o que fazemos, e, inversamente, o que somos e fazemos determina o que pensamos”. A árvore continua sendo conhecida pelos seus frutos.

(A autora é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso, RJ)

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