A formação do caráter

Caruso Samel

Amor, trabalho e conhecimento são as fontes da vida. Deveriam também governá-la. Wilhelm Reich

Dicionaristas definem o caráter sempre associando-o à moral e aos bons costumes presentes em todo comportamento humano, a saber:

1. Conjunto de traços morais, psicológicos etc., que distingue um indivíduo, grupo ou povo;
2. índole;
3. temperamento;
4. qualidade;
5. firmeza de atitudes.

E, em consequência, mau caráter, como:

1. quem demonstra maldade ou qualidades negativas de caráter;
2. pessoa sem escrúpulo, que engana as pessoas sem o menor constrangimento;
3. desvio de caráter (para o mal);
4. diz-se daquele ou daquela que age sem decência, sem pudor, sem sensibilidade humana.

E, em função da dualidade das coisas do mundo, podemos chamar de bom caráter:

1. aquele que demonstra bondade ou qualidades positivas de caráter;
2. pessoa escrupulosa que só procura praticar o bem ao semelhante;
3. pessoa decente, dotada de pudor e de grande sensibilidade humana.

Independentemente de a pessoa ser de bom caráter ou de mau caráter, vamos procurar entender como ele se forma, levando em conta aspectos psicológico-educacionais no seio da família e nos relacionamentos sociais.

Afinal, o que é o caráter? Caráter é o modo como cada pessoa se comporta e se apresenta em seu relacionamento com outras pessoas. É uma atitude de natureza psicológica face ao mundo externo, e, portanto, própria e única de cada indivíduo. Assim, o caráter é determinado pela disposição e pela experiência de vida de cada indivíduo, que mais ou menos se ajusta à realidade do contexto social.

Devemos admitir que o caráter se forma a partir de atributos mais simples que a ele se integram para manter uma estrutura psicológica necessária ao desenvolvimento sadio da pessoa. Essa estrutura se torna maleável ou rígida e inflexível de acordo com os ensinamentos que a criança recebe na primeira infância por influência dos pais. Quanto mais rígida ela for, mais a criança vai opor-se e criar resistência à incorporação dos atributos menores, como a honradez, a dignidade, o respeito ao semelhante, o amor ao próximo, a amizade etc. Se esta for a tendência, mais esse caráter se transformará em resistência que acabará por manter o inconsciente (onde estão armazenados todos os atributos) fora do alcance da vontade consciente de os aceitar. Isso faz com que a pessoa passe a agir ou reagir como se fosse um autômato ou robô desgovernado. Dessa forma, a pessoa coloca-se na defensiva a tudo que vier de fora para dentro, isto é, que provém do meio ambiente ou de outras pessoas. Isso é terrível para a criança, cujo caráter se acha em formação, levando-a ao estado reativo, como regra, para se defender com irritação e agressividade. Assim, a nossa conclusão é que o caráter tem muito a ver com aquilo que foi experimentado pelo indivíduo na sua meninice. Como cada pessoa é única, seu caráter é único - não há dois iguais.

De acordo com as ideias do famoso psicólogo Wilhelm Reich (1897-1957) o caráter seria representado pela dimensão total das atitudes e ações individuais em relação ao mundo. Sua formação deriva de diversos fatores. Em primeiro lugar, esses fatores incluem os processos de identificação com as figuras paterna, materna e fraternas. Também importantes são o desenvolvimento psicossexual, a relação entre o ego ideal (verdadeiro) e ego real, bem como as restrições e identificações éticas e morais que a sociedade impõe. Esses fatores variam de acordo com o contexto social e cultural, com a disposição herdada pelo indivíduo e com as defesas que vão formando-se durante a vida, podendo aproximar-se ou afastar-se do caráter individual dos extremos representados pelas pessoas de bom caráter e as de mau caráter.

O caráter é a integração de atitudes e hábitos de um indivíduo segundo um padrão consistente de respostas às várias situações de seu relacionamento. Por isso mesmo, ele inclui atitudes, valores conscientes e comportamentos. Dai poder-se dizer que a pessoa se expressa na vida, tanto através da forma (postura, movimentos, expressões corporais, entonação da voz etc.), como através do conteúdo de sua comunicação escrita e principalmente verbal.

Na psicologia freudiana, o caráter age como função protetora do nosso ego real contra os perigos internos e externos, limitando a mobilidade psíquica da personalidade. Essa função protetora forma uma espécie de couraça de caráter cuja finalidade é proteger o nosso ego verdadeiro dos perigos internos e externos. É essa couraça, suportada pela censura que impomos a nós mesmos, que acaba frustrando o choque entre as exigências pulsionais e as do mundo externo. Daí, ser a crítica exagerada a nós mesmos perniciosa em relação à autoestima. Quando a criança se desenvolve de maneira saudável, se os impulsos foram parcialmente gratificados e reprimidos de maneira equilibrada e as ações sofridas são incorporadas ao ego real, este se torna forte e integrado, voltado para realidade do dia a dia. Dessa forma, o ego resulta fortalecido, mas precisa-se ter o cuidado de saber educar o ego real a ponto de não afetar o ego verdadeiro ou espiritual, tudo no sentido de manter um equilíbrio harmônico entre os dois.

De tudo o que foi dito precisamos ter o cuidado de avaliar, mas não julgar, o caráter das pessoas com quem convivemos no dia a dia. Como vamos saber, com um mínimo de certeza, se estamos diante de indivíduos de bom caráter ou de mau caráter? Podemos pensar que os primeiros se enquadram como sendo pessoas saudáveis, sem bloqueios, positivas e otimistas; enquanto que os indivíduos de mau caráter como sendo pessoas pessimistas que normalmente camuflam ou escondem por dissimulação seus sentimentos e emoções resultantes de desequilíbrios psíquicos de variada natureza.

Para concluir, o caráter deve ser entendido como o comportamento característico de determinada pessoa, representando a personalidade dessa pessoa no seu modo de ser contraído (introvertido) ou descontraído (extrovertido) e de se apresentar perante seu semelhante nas interações psicossociais bem-humorado ou mal-humorado.

(O autor é escritor, militante da Filial Butantã-SP)

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