A guerra apenas começou

Clecy Ribeiro

Nas palavras do próprio autor, Pepe Escobar, mais uma tese – provocativa, curiosa, bizarra mesmo, embora compatível – sobre o mundo atual. Ele cunhou o termo “globalistan” (que traduzimos por globalismo), e seus “derivados” talibanismo, nuclearismo, europeísmo, americanismo, para explicar um mundo fragmentado, de desigualdade cada vez mais explosiva, que se dissolve em ‘guerra líquida’. Uma consequência natural da modernidade líquida exposta pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Um mundo onde tudo é volátil e tende a ferver até o ponto de ebulição.

Assim, Escobar propõe-se levar quem quer que seja em sua peregrinação ao Oriente Médio, Ásia Central, China, Rússia, Europa Ocidental, África Ocidental e América do Sul. “Você revisitará as ‘guerras assimétricas’ no Afeganistão e Iraque. Cruzará com o mundo islâmico. Percorrerá um montão de oleodutos. Conhecerá o Irã que a próxima guerra provavelmente atingirá. Perceberá que a guerra de resistência nacional nada tem a ver com terrorismo. Será confrontado, mais e mais, com o concorrente estratégico Ásia – onde se esgotará o futuro do século XX. Revisitará como, onde e quem lucra com a globalização econômica e, especialmente, o corporativismo bélico. Descobrirá como mais comércio não traz, necessariamente, mais paz. E como e onde emerge uma Nova Ordem e a Velha Ordem se desintegra. E terminará a peregrinação de novo no meio de uma – previsível – ‘guerra global’ dos poucos privilegiados contra os muitos excluídos”.

Estratégia, eis um ponto crucial. Com ela se pode chegar à destruição de culturas singulares e tudo mais capaz de resistir à globalização. Início da fervura. A primeira ‘guerra global’ começa no 11 de Setembro 2001 e traz à tona a veleidade de universalidade do Ocidente: remodelar o planeta à sua imagem.

Com a Líbia, a ‘guerra real’. Por que meses se passaram para expurgar um ditador no poder há quatro decênios? Foi, de fato, uma guerra civil; uma parte do país o sustentava. Ao contrário dos vizinhos Egito e Tunísia, a população líbia não padecia da mesma miséria. Mesmo corrompido, o governo deixava ao povo uma margem de renda petrolífera e acesso quase gratuito à energia elétrica, lembra o analista Claude Lazmann. Ora realocada ao mundo árabe, a Líbia partilhada exclui os países africanos dos grandes contratos comerciais. Não por acaso o riso exultante do presidente Sarkozy na foto celebrando o acordo, em Paris. Ganha a petrolífera francesa Total negócios de US$ 44 bilhões em barris de petróleo, e melhora de posição face à italiana Eni. O que mostra que a renda petrolífera será um fator importante nas revoltas do mundo árabe. Mas estas provavelmente não aconteceriam sem a correlação de forças internacionais e a inversão das posturas americanas e europeias face aos líderes envolvidos.

A seguir o raciocínio de Escobar, estamos na ‘guerra do petróleo/gás’ – de resto, antiga e infinita. E com outro ator importante, de planos ambiciosos: a Rússia. Basta mencionar dois projetos atuais de gasodutos: a Corrente do Norte (a partir deste outubro 2011 levará gás diretamente à Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda, França, Dinamarca e outros países, via Báltico) e a Corrente do Sul, para 2015, via mar Negro. Deste são beneficiários Alemanha, França, Itália. O projeto é um desafio ao Nabucco (gasoduto para a Europa via Turquia, de aval norte-americano). Um jogo político, na verdade. Moscou busca reescrever a história russa com o Ocidente, através de uma Europa afligida pela dependência de energia. E, sobretudo, não se deixar alijar, pelos Estados Unidos, da disputa energética e da zona de interesse maior, a Ásia.

Para Vladimir Putin, homem forte da Rússia, a “guerra de civilizações” – teses do cientista político Huntington esposadas por Washington – cede ao “diálogo das civilizações”. Respeitar as identidades de cada país. Afinal, defende Putin, a Rússia não pertence só à Eurásia, mas é um país islâmico, budista, do judaísmo. Tem interesses geopolíticos no Oriente Médio, onde se reinstala graças à parceria com o Irã; propõe-se crescer em influência na Europa via Gazprom. E, a crer nesse afã, candidata-se a mediador no que já está vindo por aí.

Enquanto isso, a habilidade diplomática dos Estados Unidos encolhe-se. A atual estratégia é permanecer nos bastidores, deixando à Otan o papel de atuar nas linhas de frente, para forçar mudanças em governos tidos como repreensíveis. Uma estratégia em total contraste com a política de cowboy do governo anterior, mas que pode agradar neocons e democratas e alguns “falcões”. O sinal soou na revista The New Yorker (abril 2011, fonte anônima da assessoria de Barack Obama, em entrevista a Ryan Lizza): a nossa é uma estratégia consciente de “liderar dos bastidores”. O termo repete-se como mantra, sobretudo na imprensa e/ou em qualquer oportunidade em que se manifestem os candidatos potenciais à presidência, em 2012. Assim, assumem o crédito das mudanças, ora em curso, os movimentos nacionais, “legítimos e efetivos”. Há quem questione Obama: será uma recusa à liderança?

No albor deste século XXI, e voltamos a Pepe Escobar, o mundo vive uma ‘guerra intestina’, uma ‘guerra civil global’, não declarada. A segurança do decantado mundo pós-ocidental repousaria não mais nos Estados Unidos, mas num sistema passível de substituir sua hegemonia, seu controle do poder. Possivelmente um sistema de coligações flutuantes, como querem alguns analistas. Enquanto isso, a Ásia permanece como prioridade máxima de segurança. Quem fia mais fino – diplomacia ou militarismo? Esta a ‘guerra do americanismo/globalismo’.

(A autora é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso, RJ)
 

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