Clecy Ribeiro
Copa do Mundo e Olimpíada como fatores de identidade, prestígio, cultura;
e molas de investimento
Reputação pode ser a marca registrada de um país. Nada melhor que o esporte
para prová-lo. Alguns sabem tirar proveito disso, principalmente quando
anfitriões. E sobretudo de Copas. O futebol guarda em si fascínio, paixão,
sonho, comunicação. Está nos negócios desde o advento das dinastias
empresariais, bem como a mídia e o comércio armamentista. A Fiat dos Agnelli,
por exemplo, proprietária do jornal La Stampa, confraternizava com os
grandes jogadores de futebol num esquema publicitário de toma-lá-dá-cá, a
ponto de a Juventus tornar-se a paixão de um dos filhos, Eduardo, de resto
sem qualquer talento para o aço.
Para esta Copa, a África do Sul lutou contra o relógio e as manifestações,
na tentativa de finalizar megaobras urbanas e de modernização, com
prioridade lógica para estádios. Já em meados de 2009, 150 mil trabalhadores
da "infra-estrutura" mobilizaram-se em greves e protestos. Prédios públicos
não ficaram imunes. Em março deste ano, estivadores e funcionários dos
transportes somaram-se à onda, depois de mais cortes de salários e aumento
dos preços da energia elétrica.
Quarenta por cento da população vivem na pobreza, mas o país continuou a
enfeitar-se, graças a contratos com 30 firmas estrangeiras de segurança,
compra de armas e câmaras de vigilância. O futebol não é mais aquele esporte
popular...
Ladainha familiar? Sintoma a considerar? Em Porto Alegre, uma das 12 cidades
brasileiras agraciadas com o sinal verde da Copa 2014, ambientalistas
começam uma grita contra as melhorias decantadas, temendo inclusive pelo Rio
Guaíba. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, anfitrião da Olimpíada 2016,
implanta-se esquema de segurança similar ao sul-africano, contornando
favelas entulhadas, face às injustiças e incompetência do sistema. O Brasil
permanece à frente dos "mais" do fosso ricos x pobres.
Argumentam os otimistas: os benefícios oriundos do grande influxo de capital
recompensam. Mostram como exemplo Barcelona, desde 1992 modelo de
revitalização para Atlanta, Sidney, Atenas e Pequim. Resta a esperança de
que o efêmero ceda a uma imagem nacional resguardada para os pósteros sob a
capa de agenda social efetiva. Afinal, o esporte, sobretudo o futebol, tem
poder associativo para isso.
Tanto África do Sul quanto Brasil são candidatos lógicos a potências
regionais, no mundo multipolar que parece avizinhar-se, agora mais rápido.
Projeções recentes (Rajan Menon, The End of Alliances, Oxford University
Press, 2007) mencionam textualmente o Brasil: "No século XXI, crescerá a
influência da China e Índia na Ásia; a Rússia permanece forte no cômputo da
Ásia Central e região do Cáspio; e o Brasil poderoso na América do Sul. Tudo
a expensas de Washington".
Definitivamente, o Brasil já começou a assumir tal papel de "jogador/ator"
nesse mundo multipolar, de poder ainda difuso. Mal delineado ainda, namora
uma estrutura de diplomacia, defesa e tolerância dominantes. Ao menos, é o
que pretende o país – e lá dos idos de Rio Branco e Rui Barbosa –, imbuído
de ideias de solidariedade e paz, em geral, e, agora, de uma mudança no
conceito de esporte, em particular, fazendo-o pender para a agenda social.
Esporte em simbiose com política e diplomacia, visando a resultados
altamente mensuráveis nos negócios e presença internacional. Afinal, nas
últimas décadas do século XIX, o futebol sofreu uma metamorfose: o estatuto
de esporte popular integrou-se de vez ao de negócios. A ponderar se as
virtudes sociais mantêm-se nessa simbiose.
"O globo estaria mais parecido com uma Copa. E o Brasil mais notabilizado
nos dois", pensa o diplomata Douglas W. de Vasconcellos. (Esporte, Poder e
Relações Internacionais, Fundação Alexandre de Gusmão, 2008). A Seleção,
assim, vista como representante do povo, sociedade e economia, povo capaz de
assumir compromissos e responsabilidades na comunidade de nações. E respeito
às regras do jogo. É preciso redesenhar os mapas atuais, obsoletos no dizer
de alguns cientistas políticos, embora novos cartógrafos ainda estejam
escassos para tarefa de tal envergadura.
2010, 2014, 2016. "Aquecidos", África do Sul e Brasil dão seus tiros de
saída para a multipolaridade, perspectiva histórica em transe. Estarão
prontos para encaçapar e encaixar, evitando enfeitar, dar de graça e
enterrar o time?
(A autora é Jornalista)
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