A mulher e os bárbaros

Tendo sido o Cristianismo influenciado não só pela civilização romana, como pelo elemento bárbaro, a mulher sofreu grande modificação no conceito social, passando a ser querida e admirada.

A igreja romana criou o casamento sacramental, com o cerimonial pagão. Aparecendo depois o desenvolvimento do ascetismo, restaurou-se o culto das vestais. O celibato foi considerado um estado mais perfeito que o casamento, e os padres não viram na mulher mais do que um instrumento de tentação e culpa, como fora Eva, segundo a lenda paradisíaca do Gênese.

O direito canônico considerava a mulher moralmente inferior ao homem, e assim o casamento passou a ser para o clero romano um mal necessário, uma conseqüência do pecado original. Esta aberração é igual ao devaneio de Comte quando asseverou que, no futuro, num estado de graça, a mulher não careceria do homem para procriar. A opinião dos padres da igreja sobre o casamento, na história da civilização, tem tanto valor quanto a concepção de Comte sobre a automaternidade.

No que particularmente respeita à mulher, os germanos, em estado de barbárie, descendo do norte, invadindo o Império Romano, trouxeram para a civilização latina um respeitoso e exaltado amor pela mulher, desconhecido até ali. A influência da mulher entre os godos era enorme.

Os romanos respeitavam então suas mulheres e suas mães, os gregos tratavam bem as hetairas, as cortesãs, esposas ideais, que com eles discutiam problemas de filosofia e de arte, mas para os bárbaros havia o puro respeito pela mulher e pelo seu sexo.

"Honra a Deus e à mulher", era a divisa que, durante a Idade Média, nobilitou o espírito cavalheiresco daquela época de grande incubação social.

O valor orgânico da mulher nas sociedades futuras devia caracterizar a sua situação social nos séculos que se sucederam e no presente. Com a Idade Média iniciou-se uma fase de progresso. Introduziram-se na Europa os algarismos árabes; iniciou-se a fabricação do papel; descobriu-se a pólvora e a bússola, a pintura a óleo, a gravura e a imprensa. Foi assim que se preparou o deslumbrante período da Renascença. Foi na Idade Média, ainda, que reapareceu o estudo do direito romano, abriram-se escolas filosóficas e cultivou-se a poesia.

A Idade Média deve à mulher o amor e o respeito que o homem, nessa época, começou a dedicar-lhe. No século XVIII, na Alemanha, existia o castigo de obrigar a mulher desonesta a vestir um saco de penitente, sendo ela exposta à porta da igreja para chascos dos transeuntes. Mas, se havia tanto desprezo pelas deficiências morais da mulher, não se cuidava da sua educação, sendo certo que quase sempre a mulher falta aos seus deveres morais por ignorância e educação viciosa.

No entanto, na Europa Central, onde os germanos ou bárbaros melhor se fixaram, é interessante saber como esta raça compreendia, ainda no século XVI, a situação da mulher, e a estimava e defendia. Pouca atenção se prestava, naquele tempo, à educação intelectual de uma princesa alemã. Só se desejava que ela fosse uma boa dona-de-casa, inteligente e trabalhadeira. Bastava que soubesse ler e escrever, alguma aritmética, um pouco de geografia, mas muito catecismo. Poucas vezes estudava latim.

Por esse tempo já na Alemanha o casamento entre príncipes raramente era de amor sincero. Representava um negócio da família ou do Estado.

Os germanos ou bárbaros foram, portanto, os primeiros a elevar a mulher, amando-a e respeitando-a, sem diminuí-la nem escravizá-la.

Maria Cottas
Do livro Folhas esparsas


Página principal | Arquivo