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Abra a janela para a felicidade
Tharsila Dantas Prates
Que tal ser feliz agora? É só uma questão de querer, de estar atento a pequenos
momentos do dia-a-dia que podem fazer a diferença. A escritora Clarice Lispector
identificava nos maus hábitos, na repetição das tarefas diárias, o motivo para o
descontentamento da humanidade. Ela escreveu no poema Eu sei, mas não devia: "Eu sei
que a gente se acostuma/ Mas não devia/ A gente se acostuma a morar em apartamentos de
fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor/ E porque não tem vista,
logo se acostuma a não olhar para fora/ E porque não olha para fora, logo se acostuma a
não abrir as cortinas/ E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a
luz/ E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão."
Que tal fazermos tudo ao contrário? Quer dizer, que tal acordar cedo, dar bom-dia a
todos, conversar amenidades e apreciar a paisagem? No poema, Clarice Lispector continua:
"A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora/ A tomar
café correndo porque está atrasado/ A ler jornal no ônibus porque não pode perder
tempo na viagem/ A comer sanduíche porque não dá para almoçar/ A sair do trabalho
porque já é noite/ A cochilar no ônibus porque está cansado/ A deitar cedo e dormir
pesado sem ter vivido o dia."
Que tal de novo modificar tudo isso? Aí, você pode me perguntar: "E os meus
problemas onde ficam? É fácil falar, mas fazer que é bom..." Sabemos que não é
nada fácil, mas o Racionalismo Cristão nos ensina duas grandes verdades: primeiro, não
se consegue nada sem esforço e sem disciplina; segundo, que as mudanças só podem
ocorrer de dentro para fora. Não adianta os outros quererem. O pensamento e a ação
devem partir de nós e, se depende de nós, nada impede que comecemos a mudar já.
Em setembro, revista feminina de grande circulação (Cláudia) publicou entrevista com
o psicanalista Contardo Calligaris, que dizia que a felicidade pode ser feita tanto de
momentos extraordinários quanto de detalhes triviais. Como é bom rever um amigo, pôr a
conversa em dia, deitar no colo da mãe, dar um abraço bem apertado no pai, tomar água
de coco em boa companhia. Já pensou nisso? É claro que a vida não é feita só desses
momentos. E disso nós sabemos muito bem. O psicanalista em questão dizia exatamente que
a vida é muito mais do que isso, porque é feita também de dissabores. Vivemos medos,
separações, perdas, dores e doenças. Nem por isso devemos achar que a vida é uma
porcaria só porque não estamos felizes o tempo todo.
O fato é que, ele dizia, a humanidade padece de uma doença incurável: nós queremos
saber qual é a finalidade da existência. "Como não nos contentamos em simplesmente
existir e viver o presente, nossa modalidade preferida de tempo é o futuro. E assim a
felicidade é protelada para quando eu me casar, quando eu me separar, emagrecer, tiver
dinheiro, me aposentar..."
Recai no que a militante da Filial Marília (SP) sra. Heloísa Ferreira da Costa dizia
sobre aprender a viver, em artigo publicado em A Razão de setembro: "Espera-se tudo
a vida toda. Primeiro se espera alcançar a idade adulta para se poder tomar as próprias
decisões; depois se espera uma época de melhor situação financeira para obter-se o que
se deseja, e assim, de espera em espera, passam os anos e, às vezes, já bem idoso, o
indivíduo percebe que passou a vida toda esperando para ser feliz sem se dar conta de que
a felicidade estava bem ali ao seu lado."
A questão da finalidade da existência não é mistério para quem conhece a verdade
explanada pelo Racionalismo Cristão. Sabemos de onde viemos, o que temos que fazer e para
onde vamos. É consenso que, quando estamos certos do que queremos e sabemos o que fazer,
as coisas fluem com mais naturalidade. Daí a importância da estratégia e da logística
tão faladas no mundo dos negócios. É preciso, portanto, ter foco. Para nós,
racionalistas, esse foco precisa estar claro. Para a grande maioria da humanidade,
infelizmente, o foco está embaçado, como numa fotografia desfocada. E daí surgem as
dúvidas, as inseguranças, as depressões e a busca incessante pela felicidade eterna,
futura, reforçada pelos contos de fadas, onde os personagens vivem felizes para sempre.
Saber o que se quer, ter foco. Isso não quer dizer que as dificuldades não vão
aparecer. Nada disso. Elas aparecem e, às vezes, vêm com força. Mas nada como um dia
após o outro. Já ouviu Maria Betânia cantar estes versos: "Você verá que é
mesmo assim/Que a história não tem fim/Continua sempre que você responde sim/A sua
imaginação/A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não"?
Por isso, não se esqueça: abra as cortinas, olhe para fora da
janela, curta as pequenas coisas. Preocupe-se com isso hoje. Amanhã será outro dia. Isso
será a sua felicidade. * * * O psicanalista Contardo Calligaris é autor de vários
livros e colunista do jornal Folha de São Paulo
A autora é jornalista
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