Acúmulo de dívidas

Luiz Reis Ormonde

Numa lista de coisas boas de qualquer pessoa aparecem paz, liberdade, felicidade, amor...

 Já aconteceu ouvirmos, ao presidir uma reunião pública do Racionalismo Cristão que alguém (um espírito encarnado) estava muito preocupado pois seus maus procedimentos levavam-no a pensar que ele possuía tantas dívidas espirituais que não sabia se poderia pagá-las para, então, atingir um plano espiritual mais elevado.

É necessário que analisemos a questão de forma racional e científica.

Para atingir um plano espiritual mais elevado, o espírito precisa emitir ondas de pensamento que estejam em sintonia com as ondas de pensamento desse mundo mais elevado. O que caracteriza e até mesmo determina a existência de um determinado mundo espiritual são as ondas de pensamento dos espíritos que, reunidos, constituem esse mundo.

Os jovens de hoje referem-se a grupos de interesses comuns como tribos. Existe a tribo do surfe, do ciclismo, do balonismo etc. Alguém consegue imaginar-se um bom ciclista fumando e bebendo? É claro que não. Da mesma forma, ninguém mesquinho, medroso, mau poderá imaginar-se pertencendo à "tribo" à qual pertence Martin Luther King.

Para atingir um plano espiritual mais elevado o espírito precisa mudar (para melhor) suas ondas de pensamento. Isso ocorre quando ele altera a sua maneira de ser ao vivenciar as experiências do dia-a-dia em múltiplas encarnações.

O conceito de mau está intimamente relacionado com as atividades que são desenvolvidas apenas no planeta Terra e não em plano astral, tais como ostentação, vaidade, vingança etc.

Peça a qualquer um que faça uma lista de coisas boas e ouvirá: paz, liberdade, felicidade, amor etc. Sabemos que isso só pode ser sentido quando se está encarnado, se o espírito desliga-se das coisas materiais. Para chegar a um mundo espiritual mais elevado é preciso passar a pensar como os espíritos desse mundo espiritual. Por isso Martin Luther King, Mahatma Gandhi e outros não estão sozinhos. Quem são seus companheiros? talvez o leitor esteja perguntando. Ilustres desconhecidos, espíritos que, quando encarnados, já emitiam ondas de pensamento idênticas às desses famosos pacifistas, mas não tendo vivenciado situações em que fosse necessário externar uma conduta idêntica não se tornaram conhecidos de todos, não passaram para a história da humanidade, não ficaram famosos.

Não terem ficado famosos não os preocupa nem um pouco. Tendo a força interior que caracteriza os pacifistas, suas ondas de pensamento os reúnem aos dois grandes líderes já citados. Hoje, trabalham em plano astral superior, fortalecendo outros, ainda encarnados, que tenham os mesmos sentimentos e, portanto, ondas de pensamento semelhantes.

Se aquele espírito encarnado que citamos no início desse artigo pudesse agora mesmo passar a ter ondas de pensamento altruístas, que o fizessem desligar-se do planeta Terra, avançaria instantaneamente para um plano espiritual mais evoluído ao desencarnar.

Por isso não deve analisar a questão pensando que tem dívidas espirituais, com baixa auto-estima, sob o peso de  erros e débitos.

Seus erros e débitos! Soa pesado, não soa? Ainda mais com ponto de exclamação. Pois é assim mesmo que o indivíduo sente-se. Isso é resquício de ensinamentos que a humanidade vem recebendo há milhares de anos a respeito de pecado e castigo. Não queremos dizer que o espírito encarnado não deva preocupar-se com seus erros. Até mesmo porque talvez tenha prejudicado outros encarnados. Deve, sim, preocupar-se, mas deve também acrescentar a isso a compreensão de que suas ondas de pensamento que o levaram a errar são do tipo que só os indivíduos que se ocupam apenas com o viver terreno emitem. 

Reerga-se e utilize-se desse momento de reconhecimento de seus erros para, no futuro, não desanimar e agir sempre de forma a auxiliar o progresso de todo o planeta, por mais simples que sejam suas tarefas. Lembre-se que, espiritualmente falando, não há uma caderneta onde ficam anotados os erros e acertos e ninguém fará as contas para ver se o espírito vai para um mundo mais evoluído ou não. Mundos espirituais não têm portas de entrada. O acesso a esses mundos vai sendo construído, aos poucos, pelo próprio espírito encarnado quando pensa sempre no bem de todos; quando não joga lixo no chão, quando nãotroca de carro para poder pagar um curso para um filho, quando evita falar mal de alguém (se o fizer, é tentar não fazer novamente).  

O espírito não passa a ter apenas pensamentos elevados, da noite para o dia. É um processo lento, que exige raciocínio. A outra forma, já tentada com a humanidade não deu certo. Era incutir o medo do pecado, assustando com o castigo eterno, mas isso só gerava medo, o que é um sentimento que impossibilitava as pessoas até mesmo de contestar o que tentavam impor-lhes como razão para serem corretas e honradas.

Espíritos mais evoluídos, lembrem-se bem, não são deuses nem juizes. São  conselheiros, principalmente pelos exemplos que nos deixaram e também emissores de ondas de pensamento tranqüilizadoras e de fortalecimento.

Pense no astral superior de forma otimista e até com bom humor: eles (astral superior), somos nós amanhã. É com esse otimismo que eles querem que pensemos neles; não como pedintes ou derrotados sob o jugo do acúmulo de dívidas.

(O autor é militante da Casa-Chefe, médico)

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