![]() |
![]() |
|
|
|
|
África de múltiplas feições Clecy Ribeiro Um continente em ebulição, desde seu despertar, segue curso acelerado “A Revolução Africana é mais que imensa; é orgânica, inconstante, processando-se ante nossos olhos... Rebentou seus elos uma dúzia de vezes, e evadiu-se de uma definição final". Palavras recentes? Longe disso. Distam meio século. Seu profético e ajuizado autor, o inglês James Cameron, já tinha do continente uma visão bem peculiar: somos nós os espectadores; é a África em ascensão. Uma África em demanda, acelerada, de mistério e enigma, surpresa e esperança, apreensiva mas orgulhosa. Uma África que não acorre ao mundo, pois é este que tenta encontrá-la, em seu presente urgente e seu futuro de conjeturas. Uma África que atrai pelas vastas terras férteis e reservas de recursos intocadas. Nem fome, doenças, violência, divisões étnicas, corrupção, instabilidade, desgovernança, nada a furta de um potencial que se abre ao desenvolvimento. Este o continente ora suscetível de maiores atenções também dos Estados Unidos. Já lá estão não poucos. E de há muito. Negócios expandindo-se sobretudo com a Ásia, de resto desde os tempos da Rota da Seda, depois pelo período pós-colonial. Talvez nunca como agora. Concentram-se num punhado de países e indústrias extrativas (petróleo e mineração), com estratégias evoluindo. Índia e China, por exemplo, envolvem suas classes médias burguesas no consumo de alguns manufaturados africanos, além do uso de instalações de turismo e telecomunicações. No contexto, a região do sub-Sahara assume importância estratégica, pelos recursos. Ali chega o presidente Barack Obama, em visita simbólica, por assim dizer. Por que Gana? Na história do despertar africano, o emergir da Costa do Ouro como Gana independente, em 6 de março de 1957, deu-lhe o rótulo "a terra da liberdade". A Kwame Nkrumah, seu líder, a personificação da não-violência, logo figura influente em todo o cenário africano. Gana representava as aspirações de todos. Foi em Acra, capital, que se realizaram os primeiros encontros genuínos, como o dos Estados Africanos Independentes e a Conferência de Todos os Povos Africanos. Esta, significativamente, presidida por Tom Mboya, do Quênia, onde se lançou a campanha do nacionalismo africano. O presidente Obama herda de seus predecessores, Bill Clinton e George W. Bush, interesse renovado pela África. A partir do segundo mandato, Clinton liderou duas delegações de alto nível ao continente. Do governo Bush, em que pese envolvimento custoso em erros (mais voltado à luta antiterrorista), o Plano de Emergência para Minorar a Aids, a Corporação de Desafio do Milênio e o Africom. O primeiro chamou atenção, também, para questões de saúde pública, como um todo. A Corporação, programa de incentivo à boa governança, dentre países mais pobres, rendeu à África dois terços dos acordos de ajuda, mais o respeito a altos funcionários do governo norte-americano, na arena política africana. Mas o Comando Unido US-África, criado há um ano, apresenta face dúbia: diálogo e militarização. Três setores apresentam impacto direto nos interesses norte-americanos na África, segundo a autora Jennifer Cooke: segurança, energia e saúde. A eficácia da política da Casa Branca dependeria de persuasão: convencer um Congresso cético e uma opinião pública distante de que vale o investimento. Recente reunião do G-8 deu toque positivo, ao menos na aparência. A Iniciativa de Ajuda à Fome evoluiu de simples doações de grãos e/ou produtos para a ideia de assistência em infra-estrutura e treinamento de fazendeiros. Teses novas para velhas disputas por recursos. Afinal, vivenciamos hoje um sistema geopolítico interconectado, em que considerações políticas cedem, quando se trata de controlar bens necessários ao funcionamento das sociedades modernas. Costumam ser modestas as respostas de Washington, lembram os analistas. Em segurança, o Africom continua ambíguo. Em energia, crescem os interesses, já plenamente aberto o continente a investimento estrangeiro e concorrência desenfreada, com atores mais recentes oferecendo vantagens (China, Índia, Malásia, Brasil), num mercado antes predominantemente europeu e norte-americano. Em saúde, desafios além da Aids na esteira: água e serviços sanitários, alimentos e nutrição. E os rastros da crise financeira mundial deixam, também, grande incerteza na política africana do presidente Obama. Insulada dos efeitos imediatos, a África sofre indiretamente, com declínio de investimentos e remessas, fluxos de capital e assistência externa. Cenário um tanto desencorajador. Até mesmo para o principal suporte (privado) da Aliança para uma Revolução Verde na África: as Fundações Rockefeller e Gates. Do ponto de vista geral, Washington cortou investimentos, em capital e talento, no combate às raízes da fome. Menos 85% desde os anos 1980. Também a ajuda ao setor agrícola africano, inclusive em pesquisa. Ainda: em 1993, desmantelou-se o Comitê Seletivo da Câmara para Assuntos da Fome. FOME. Enquanto isso, aproxima-se de 1 bilhão o número de pessoas (sobre)vivendo em fome. Menos críticas, porém, as estatísticas do FMI projetam crescimento africano em torno de 1,5%, neste ano, e 4% em 2010. O comércio já responde por 60% do PNB africano, o investimento direto atinge US$15 bilhões/ano e triplicaram os países investidores, mercê de lucros polpudos, nos mercados de capitais do sub-Sahara. Vastidão, vácuo, atraso, dependência. Barreiras ao desenvolvimento, às quais se somam exploração, pilhagem de recursos, protecionismo comercial. Mão que tira mais do que a outra dá. Mas a África, com sua mobilidade demográfica e urbanização maciça, recomposição geopolítica e ambições, não para de se transformar. Prossegue a Revolução Africana descortinada por Cameron. No africanismo, a descoberta de si mesmo. (A autora é jornalista) |
|
|
|
|