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A água que chega às torneiras pode não ser tão potável
Tharsila Prates É assustador, mas isso significa que pesticidas, hormônios, remédios (entre eles os anticoncepcionais), cosméticos e organismos patogênicos estão na água potável que sai da torneira das casas dos brasileiros. Medições feitas em universidades do país mostram que a concentração dessas substâncias é pequena, mas o professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) Ivanildo Hespanhol lembra que as concentrações dessas substâncias não precisam ser altas para fazerem mal à saúde. “A situação é preocupante, sem dúvida, mesmo as substâncias estando em concentrações pequenas”, explica Hespanhol. Ele dirige o Centro Internacional de Referência em Reúso de Água (Cirra) e lá desenvolve tecnologia para tratar a água de uma forma mais eficiente. Segundo o pesquisador, a Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão que regulamenta a questão, já prevê orientações para as companhias de saneamento com relação à presença dessas substâncias na água. As diretrizes da Organização foram revisadas recentemente. O problema é que o sistema de tratamento de água no Brasil não é suficiente para filtrar as substâncias nocivas presentes nos remédios, nos pesticidas e demais substâncias. É como se todo o processo de tratar a água “pescasse” poluentes “maiores” e deixasse passar as substâncias que são solúveis. Nos países desenvolvidos, a água captada para consumo dos cidadãos vem de mananciais limpos, ao contrário do que ocorre no Brasil, onde a maioria dos mananciais é poluída. Isso ocorre principalmente nas grandes cidades. Com os mananciais sujos e um sistema de tratamento ineficaz, a chance de a água ser cada vez menos potável é muito grande. Ferver a água mata as bactérias, mas não essas substâncias solúveis e, segundo o pesquisador da USP, nocivas à saúde. Não há relatos de doenças diretamente ligadas à presença desses poluentes. O perigo é que o processo é cumulativo, ou seja, a resposta do organismo pode demorar anos. As pessoas podem até não associar dores de barriga e febre ao consumo de água, mas ela pode estar sendo a origem do mal. O chefe do Departamento de Desenvolvimento Técnico e Inovação da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Américo Sampaio, prefere não fazer alarde. Ele diz que, se não há comprovação dos riscos que a presença dessas substâncias na água potável pode trazer, não há como agir. “Não podemos atuar em cima de suspeitas”, afirma. Sampaio diz ainda que a Sabesp tem acompanhado os estudos que objetivam mapear substâncias na água tratada. Para ele, a OMS não define limite para a presença desses fármacos na água. SOLUÇÕES. Como foi dito acima, ferver a água não basta. O professor Ivanildo Hespanhol recomenda usar filtros mais modernos, que contenham membranas que possam “parar” os restos de remédios e pesticidas. Sobre o sistema de tratamento, ele sugere outras tecnologias, como o uso de carvão ativado, que atuaria como uma barreira mais eficiente do que as existentes hoje. “Falta as companhias decidirem investir neste sentido”, complementa.
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