Saiba o que é a doença de Alzheimer

Flávio Martins

Amor, carinho e respeito  são as melhores armas para o tratamento do paciente

A doença de Alzheimer (DA) é uma enfermidade progressiva, de causa ainda desconhecida, que acomete preferencialmente pessoas idosas. Foi descrita pela primeira vez pelo médico Alois Alzheimer, em 1907. É uma forma de demência cuja causa não se relaciona com a circulação ou com a aterosclerose, sendo devida à morte das células cerebrais responsáveis pela liberação de um neurotransmissor, a acetilcolina, que está estreitamente ligada a processos da memória, raciocínio lógico, julgamento, linguagem e também comportamento e capacidade de a pessoa orientar-se no tempo e no espaço. O dia mundial da Doença de Alzheimer é 21 de setembro.

A Doença de Alzheimer não atinge apenas o paciente; envolve toda a família, na sua complexidade, nas angústias geradas, nas dúvidas não esclarecidas. Mães, pais, filhos, netos, tios, sobrinhos, parentes e aderentes do doente mergulham todos num processo infinito de aflições, tristeza, incompreensão, cobranças, desconfiança, críticas e todos os demais sentimentos negativos que possam partir do ser humano.

Enquanto as famílias vão ao fundo do poço, em meio a discussões, atritos e intenso sofrimento, o doente nem saberá mais o que está acontecendo à sua volta. Estará  alheio a tudo, viverá perguntando se já comeu, se precisa sair, vestirá roupas inadequadas, esquecerá onde guardou seus documentos, não saberá onde estão seus pertences, quem são as pessoas que o cercam, quando e onde nasceu. Finalmente, não terá mais certeza de quem é, de qual o seu papel neste mundo. Não se lembrará mais como ingerir um alimento, como reconhecer aqueles que o amam, como continuar num mundo em que todos brigam e ninguém o ajuda. Sentir-se-á pequeno e abandonado, numa terrível orfandade em plena vida adulta.  

SINTOMAS. No começo são os pequenos esquecimentos, normalmente aceitos pelos parentes como parte do processo normal de envelhecimento, que vão se agravando gradualmente. Os pacientes tornam-se confusos e, por vezes, agressivos. Passam a apresentar alteração da personalidade com distúrbios de conduta e terminam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos quando colocados frente a um espelho.

À medida que a doença evolui, tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação se inviabiliza e passam a necessitar de cuidados e supervisão integral, até mesmo para as atividades elementares do cotidiano, como alimentação, higiene, vestimenta, entre outros. 

CAUSA. A causa da doença de Alzheimer ainda não é conhecida. Existem várias teorias, porém, de concreto aceita-se que seja uma doença geneticamente determinada, não necessariamente hereditária (transmissão entre familiares. Ou seja, se seus pais tiveram, isso não quer dizer que você, necessariamente, vai ter). 

DIAGNÓSTICO. Não há um teste específico que estabeleça de modo inquestionável a doença. O diagnóstico definitivo da DA só pode ser feito por exame do tecido cerebral obtido por biópsia ou necropsia. Deste modo, o diagnóstico de provável DA é feito excluindo outras causas de demência pela história (depressão, perda de memória associada à idade), exames de sangue (hipotireoidismo, deficiência de vitamina B), tomografia computorizada ou ressonância magnética cerebral (múltiplos infartos, hidrocefalia) e outros exames. Existem alguns marcadores, geralmente identificados a partir de exame de sangue, como a apolipoproteína E (APOE), cujos resultados podem mostrar chance aumentada de DA e são úteis em pesquisa, mas não servem para diagnóstico individual. É claro que isso não impede que marcadores mais sensíveis venham a surgir no futuro. 

TRATAMENTO. O tratamento da DA tem dois aspectos: um não específico, por exemplo, de alterações de comportamento, como agitação e agressividade, de humor, como depressão, que não deve ser feito apenas com medicação mas também com orientação por, diferentes profissionais da saúde como psicólogos e terapeutas ocupacionais. O tratamento específico é feito com medicamentos que podem corrigir o desequilíbrio químico no cérebro, como a Rivastigmina, a Tacrina, o Donepezil e a Galantamina.

Esse tratamento funciona melhor na fase inicial da doença e o efeito é temporário, pois a DA continua progredindo. (O mais importante no tratamento é que o paciente esteja se sentindo querido o tempo todo.) 

PARENTES. As dúvidas e incertezas com o futuro, a grande responsabilidade, a inversão de papéis, quando os filhos passam a se encarregar dos cuidados dos pais, além da enorme carga de trabalho e sobrecarga emocional acabam por gerar no meio familiar intenso conflito e angústia.

A sensação de estar só, isolado, desamparado e a inevitável pergunta "por que isso está acontecendo comigo?" submetem os cuidadores a enorme pressão psicológica que se acompanha de depressão, estresse, queda da resistência física, problemas de ordem conjugal etc.

A grande arma no enfrentamento dessa doença é a informação associada à solidariedade. À medida que os familiares conhecem melhor a doença e sua provável evolução, vários recursos e estratégias podem ser utilizadas com sucesso. É fundamental que os parentes saibam que sempre há algo a fazer, sempre é possível melhorar a qualidade de vida dos pacientes e de seus familiares. Existem doenças incuráveis, porém não existem pacientes "intratáveis".

Amor, carinho e respeito são fundamentais e são também a melhor arma para o tratamento e manutenção da qualidade de vida do paciente. Procure um grupo de apoio mais próximo da sua casa para trocar informações com outros cuidadores. 

Principais cuidados no dia-a-dia

• Soluções, medicamentos, produtos tóxicos, pílulas e objetos brilhantes devem ser removidos e trancados.

• O fogão deve ter bloqueio de vazamento de gás.

• Tomadas de energia devem ser protegidas.

• Devem ser incentivados passeios fora de casa.

l•O paciente deve andar sempre com uma identificação com nome e telefone do responsável.

• Procure manter uma rotina.

• Ajude o paciente a participar de tarefas simples.

• Faça lembretes nos horários de refeição.

• Se o paciente agir de forma agressiva, evite o confronto e fale com tom calmo.

• Deixar notas de dinheiro (que não tenham valores substanciais) dá segurança em relação aos bens.

• Preencher de forma simples um caderno com as economias do paciente lhe dá segurança.

• Barras de segurança devem ser fixadas na parede ou no chão para que o paciente não tente se apoiar.

• Cuidados com objetos pontiagudos, cortantes, quebráveis ou pesados.

• Atividades simples o fará sentir-se útil e prestativo, mas deve-se ficar em alerta às limitações.

• Manter em paredes fotos ou pinturas que tragam conforto e tranqüilidade.

• Colocar etiquetas e placas indicando o banheiro ou o guarda-roupa é importante.

• O guarda-roupas deve conter somente peças necessárias e identificar as gavetas com meias, vestidos e sapatos.

•  Os espelhos devem ser removidos, porque o paciente pode assustar-se.

•  As camas devem ter proteções laterais com grades, porém que não aparentem ser cama hospitalar.

  Uma luz deve ser colocada para o paciente que levanta sozinho e vai ao banheiro.

(O autor é médico e Presidente a Filial Barbacena-MG)

Página principal | Arquivo