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Amigos de ocasião
Heloísa Ferreira da Costa
As amizades são parte importante de nossa vida. Ao longo das fases terrenas de
desenvolvimento, vamos tendo contato com várias pessoas e algumas tornam-se os melhores
amigos. Esses amigos vão sofrendo reposição, devido a mudanças de aspirações comuns.
No começo são apenas brincadeiras, depois vem a escola, escolhemos a profissão, e
novamente o quadro é alterado, ingressamos na fase adulta, conhecemos mais pessoas, e
assim amplia-se nosso círculo de amizades.
Todos esses amigos têm a sua importância particular em cada uma das fases vividas, e
alguns deles julgamos ser para toda a vida, mas infelizmente, quando alcançamos a fase
adulta, percebemos que "nem tudo que reluz é ouro", e muitos amigos preciosos
não passavam de falsos metais, oxidando com muita facilidade, magoando-nos por motivo
torpe ou nos abandonando nas nossas maiores aflições.
Quando lia o soneto de Camilo Castelo Branco sobre amizade, sempre o julguei muito
extremista, pois, de cento e dez amigos contados, após a cegueira só um o visitava, os
outros diziam: "o que vamos lá fazer, se não nos pode ver?". O espírito
muitas vezes é causticado com as traições de amigos que eram tão queridos, mas o
gênero humano é assim, temos que entender que as influências deletérias e o pouco
conhecimento de si mesmos levam o indivíduo a ter reações fúteis diante de
determinados fatos, e a lei da sobrevivência fala sempre mais alto. Desta forma, aqueles
que se dedicam aos estudos espiritualistas devem tentar compreender e ser condescendentes
até um certo limite. A maturidade nos faz entender as limitações humanas.
Verdadeiros amigos existem, mas nunca poderão ser contados em mais de uma mão. É
muito triste esta constatação, mas os sofrimentos estão aí para provar que é esta a
realidade da vida; nos bons momentos, de festas, de abundância e de poder, sempre estamos
cercados de gente, mas ao menor sinal de crise as pessoas se afastam como se estivéssemos
com algum mal contagioso cuja proximidade destruísse a sua integridade física e moral.
Não devemos, no entanto, lamentar essa descoberta. Ao contrário, são momentos únicos
que nos fazem crescer, nos fazem valorizar amigos que estavam esquecidos pela
atribulação da vida. Descobrimos também que nosso melhor amigo reside em nosso
interior, nos nossos pensamentos fortes dirigidos para o Bem, na leitura: livros são
amigos que tudo nos dão, nada nos cobram e nunca nos traem. Por isso devem empilhar-se em
nossa cabeceira, para serem consultados sempre, nas ocasiões de dúvidas, bem como nas de
júbilo.
Mas, apesar de tudo, o viver solitário limita a evolução, então temos que
compreender as falhas, temos que ser tolerantes, quando possível relevar os julgamentos e
as críticas; se a mágoa for muito grande, esquecer e andar para a frente, porque sempre
haverá novas pessoas para se conhecer, e talvez aqueles cento e nove amigos, que pareciam
imprescindíveis, não passassem de impávidos marotos.
A autora é militante na Filial Marília, SP
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