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Amor e compreensão
Maria Cottas
Quando escrevo que gosto dos jovens, apesar de, às vezes, agirem impensadamente,
sempre, sempre reconheço que são uma esperança e só lhes falta orientação. Senão,
vejamos!
Há dias, conversando com um colega de meus netos, de treze anos, disse-me ele:
— A senhora sabe, eu e meu irmão (que tem 18 anos) somos muito felizes.
— Sim, meu filho, por quê?
— Olhe, nós temos uma mãe tão boa, tão arrumada, tão zelosa conosco, conversamos
com ela e lhe contamos tudo o que fazemos fora de casa, no colégio, e ela nos compreende
e corrige, enfim, nos educa bem. Temos um pai que é um camaradão, o nosso melhor amigo.
Nossos avós também são tão bons! Nossas tias todas nos querem bem, uma, então, me
adora, e a outra é uma segunda mãe para nós. Gostamos da nossa casa, para onde trazemos
os amigos e colegas que queremos, e tanto minha mãe como meu pai não se opõem. Não
temos, pois, razão para sermos muito felizes?... Por isso procuramos estudar, para
dar-lhes alegria.
E eu, que gosto de puxar conversa com essa gente nova, continuei:
— Mas, que bonito, meu filho, e folgo em saber disso, porque assim falando você está
provando dar valor a seus pais.
E ele acrescentou:
— É, mas entre os meus colegas há uns que se julgam tão infelizes, se queixam tanto
dos pais, que custo a acreditar que um pai possa ser indiferente assim para com os filhos.
Para contemporizar, respondi:
— Quem sabe, eles também não concorrem para isso, com suas desobediências e
vadiagens?
— Qual nada – retrucou com vivacidade. Eles fazem tudo o que querem, saem e entram a qualquer hora, faltam ao colégio e seus pais nada dizem!... Eu acho que eles não têm é
carinho, é compreensão, não acha a senhora?
Eis um esclarecimento que vem confirmar que os jovens não são maus e que os seus
desmandos e leviandades provêm quase sempre da revolta de seus espíritos pela falta de
amor e compreensão dos pais.
Uns porque têm pais indiferentes, e outros porque os têm déspotas, nada
compreensivos. Quer uns, quer outros são uns insensatos porque concorrem para a
infelicidade de seus filhos e para os desmandos e corrupção da mocidade.
Nem tudo está perdido no mundo, caros leitores! Os jovens possuem sentimentos, possuem
muitas vezes um grande amor filial, que é recalcado e abafado pelo procedimento
indiferente dos pais, principalmente dos pais desquitados, que transformam esse amor em
revolta e, o que é pior, transmitem pelos exemplos a rebeldia filial que vai sendo
captada por outros na convivência que vão tendo nos colégios e faculdades e que, fracos
de espírito, se deixam facilmente levar.
Depois correm para os psicanalistas, a fim de saberem por que os filhos não estudam e
por que se revoltam. É aí, então, que tudo piora, porque nem sempre encontram bons
psicanalistas, que sejam mais psicólogos do que psicanalistas, que saibam chamar os pais
a quem devem dar lições severas sobre a maneira como se comportar com os filhos, em vez
de aconselhar a estes o abandono da casa paterna.
É isso que acontece com minha querida juventude que tanto aprecio pela sua
inteligência e vivacidade. Basta compreendê-la e ter sempre uma palavra elucidativa e
amiga para conduzi-la. Por isso, acompanho os seus festivais de canção com prazer,
porque, pelo menos enquanto cantam, eles desabafam e são felizes.
Do livro Crônicas oportunas
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