Anestesia e realidade

Guardei na minha pasta, durante bastante tempo, o trecho de um poema escrito por José Nilton Carvalho Pereira, diretor de escola particular aqui de Salvador (BA). Diz assim: "Todos nós gostamos de receber elogios./ O elogio motiva, anima, revigora.../ Mas, muitas vezes, vem revestido com a máscara requintada da falsa aparência."

Já nesse pedacinho de texto me lembrei de uma carta que recebi, em resposta, do Centro Redentor, que me orientava a não esperar elogios dos outros, justamente porque poderiam não ser verdadeiros. Até então, nunca tinha atentado para isso, mas é verdade, não é mesmo?

Sigamos com o poema: "A crítica pode até ferir, magoar.../ Mas acolhe virtudes que o elogio desconhece./ O elogio embriaga a alma;/ a crítica desperta a consciência./ O elogio anestesia e nos induz a permanecer num eterno presente./ A crítica projeta a humanidade para o futuro, acenando com a oportunidade da mudança. (...)"

Nesse duelo Elogio x Crítica, não fico com qualquer dos dois, ou melhor, fico com um pouquinho de cada um. Se é verdade que a crítica ativa a consciência e induz à mudança, também o é que o elogio pode fazer 'milagres', se feito na medida certa. Devemos usar, nesse caso, a balança, fazendo com que ela não penda nem para o elogio, nem para a crítica.

Como sempre, Maria Cottas tem sábias palavras sobre o assunto, escritas no seu livro Páginas soltas referindo-se ao tratamento dado aos filhos pelos pais: "É certo que o elogio, como tantas outras coisas boas, deve ser concedido à criança com inteligência, em medida certa e só quando merecido. Deve ser usado como reconhecimento de um trabalho bem feito para ser estímulo e servir como esperança que abrirá na criança o desejo de continuar melhorando sempre. Em uma palavra: se dirá à criança, quando boa, que pode ser melhor ainda, e, quando de mau temperamento, que pode melhorar."

Para Maria Cottas, o elogio eleva e inspira; é um grande estímulo e valioso auxiliar para a educação da criança, que, como o adulto, espera sempre um julgamento. "Os pais se esquecem que são para os filhos o público do qual eles esperam o julgamento de urna conduta. Quando não recebem o aplauso esperado se sentem tão chocados, tão magoados como o autor cujo livro ou obra fracassou", escreveu.

Podemos perceber que o elogio é uma coisa séria, assim como a crítica. Não faz muito tempo, falei com minha mãe que eu não gostava de ser chamada tanto a atenção por ela. Sabe o que ela disse? Foi mais ou menos assim: "Pois eu vou continuar chamando a sua atenção e, se bobear, a do seu marido e a dos seus filhos também". Está mais do que certa! Eu é que tenho que me colocar em posição de escuta, de alerta mesmo, e corrigir os meus erros, sejam quais forem.

Quando receber um elogio, a atitude é manter os pés firmes no chão, fazendo o que Maria Cottas já nos disse: continuar melhorando sempre. Há sempre um jeito de fazer melhor as coisas. Esse negócio de dizer "Faço o que eu posso", às vezes, não cola. Precisamos analisar se o esforço que fazemos é o máximo que realmente podemos fazer.

Permitam-me elogiar? Estive no mês passado na Filial Recife (PE) do Racionalismo Cristão e fui muitíssimo bem recebida. Quero deixar um abraço e agradecer novamente a todos os militantes pernambucanos, orientados pelo srs. Francisco Ivo de Oliveira e Joaquim Alves NEto.

Tharsila Dantas Prates
A autora é Jornalista


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