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| Antes da felicidade, o esclarecimento Tharsila Prates No início do mês passado, a Folha de São Paulo publicou uma reportagem sobre o percentual de brasileiros que se sentem felizes. A pesquisa do Datafolha indicou que 76% dos brasileiros (três em cada quatro) se consideram pessoas felizes. A taxa é maior do que a registrada há dez anos. Nas entrevistas, as pessoas que se dizem felizes levavam em conta as relações com a família, o emprego e coisas simples, como respirar, rir, passear com o cachorro e fazer compras. Um avanço, sem dúvida. Estar satisfeito com a vida e consigo mesmo é um passo para o sucesso, pessoal ou profissional. Neste quesito, faço um parêntese. Ainda me recuso a ligar sucesso a altos salários (deve ser porque eu não ganho alto salário). Há quem pense diferente, com certeza, mas isso não é um defeito. O país vive uma crise moral e ainda não alcançou grau de desenvolvimento suficiente que garanta ganhos dignos para a maioria da população. Contam-se nos dedos as empresas que têm folha de pagamento decente para todos. Como toda pesquisa que trabalha com amostragem, não podemos ter certeza se esse alto grau de felicidade é um retrato do Brasil. É certo que pequenas coisas podem proporcionar grandes momentos, como se pode constatar nos depoimentos trazidos pela reportagem. Como achar graça em pequenas coisas se, para grande parte da população, falta o básico? Não há comida, não há luz, não há saneamento, não há água encanada, não há emprego, não há moradia, não há estudo, não há a mínima perspectiva. Um dado da pesquisa explica isso: apenas 28% dos entrevistados declararam que os brasileiros são felizes. Ou seja, eles disseram que se sentem felizes, mas não vêem essa felicidade nos outros. É justo dizer também que não há interesse em progredir. Alguns poucos enfrentam a adversidade e conseguem chegar a um posto elevado, com esforço, dedicação e um pouco de sorte. Só que isso ainda é exceção. Gente pedindo, querendo viver às custas dos outros, é o que mais existe por aí. Vivemos o período de eleições, em que os candidatos prometem, prometem e só prometem. Muitos deles aproveitam o momento para anunciar planos mirabolantes que, já se vê, não vão tornar-se realidade. Eu me sinto feliz, o meu vizinho também pode sentir-se. Os entrevistados que participaram da pesquisa também. Posso falar do quanto é importante dar valor às pequenas coisas, mas sinceramente não posso esquecer dos que sofrem sem comida, sem trabalho, sem dinheiro, sem casa. Essas pessoas não estão passando por privações à toa, e a falta de esclarecimento torna as coisas muito mais difíceis. Esses dias, me emocionei junto com uma mãe que, na porta da delegacia, lamentava pelo filho de 16 anos que, segundo a Polícia, participou de um seqüestro na Grande São Paulo. Ela desabafou: "Meu filho ficou encantado com os mil reais que deram a ele para tomar conta da vítima no cativeiro. Ele nunca tinha visto tanto dinheiro. Eu só podia lhe dar dez reais. Uma vez ele me pediu um tênis que custava 200 reais e eu falei que, até o fim do ano, juntaria dinheiro para comprar, mas disse que ele não fizesse nenhuma besteira. Agora está aí. Olha para onde o dinheiro levou ele e os outros." Dinheiro sujo, claro. O que se ganha com trabalho, por mais alto que seja, só pode fazer o bem, se for bem utilizado. O mundo evolui, aos poucos, mas evolui. O grande sofrimento que paira sobre a Terra vai desaparecer. Um dia, mas vai. E com a colaboração de todos. O esclarecimento, como diz o Racionalismo Cristão, será a mola propulsora para essa mudança. Pode até estar sobrando felicidade para alguns, mas ainda falta muito esclarecimento na grande parte dos lares brasileiros. (Tharsila Prates é jornalista) |
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