Antidepressivos? Por que não o espiritualismo científico?

Luiz Reis Ormonde

Todos os fármacos utilizados no tratamento de distúrbios afetivos têm apresentado deficiências

Num primeiro momento, temos vontade de dizer a todos que não façam uso de antidepressivos, mas logo nos vem à mente a lembrança de que alguns dos que estarão lendo esse artigo talvez tenham sido orientados por seu médico a tomar alguma dessas substâncias e, para que elas tenham chance maior de fazer efeito, é preciso que o paciente aceite, seguro de que assim melhorará, as recomendações do profissional que o atendeu. Isso é válido em maior ou menor percentagem para todos os medicamentos.

Repare-se que, se ele não acreditar, as chances de que ocorra melhora serão bem menores.

Se não parou de ler o artigo, vamos continuar: efeito placebo é o efeito que a auto-sugestão pelo uso ou por acreditar-se que se está usando um medicamento produz.

O assunto é complexo, não?

Complexo e instigante.

Antes que o informemos dos efeitos colaterais indesejáveis, prejudiciais dos antidepressivos, vamos transcrever alguns trechos do livro As Bases Farmacológicas da Terapêutica, 11ª edição (original, em inglês), da editora Mc Graw Hill.

Nesse livro, na página 450, encontramos o seguinte: "Claramente, nem todos os tipos de culpa e angústia constituem indicações para tratamento clínico e até mesmo os distúrbios afetivos graves apresentam elevada taxa de remissão espontânea (significa curar-se sem uso de medicamentos, dizemos nós, para esclarecimento do leitor), contanto que transcorra tempo suficiente (com freqüência, questão de meses). Antidepressivos são geralmente reservados para os distúrbios depressivos mais graves e incapacitantes. O resultado mais satisfatório tende a ocorrer em pacientes que apresentam doença moderadamente severa com características "endógenas" ou "melancólicas" sem aspectos psicóticos. (ver American Psychiatric Association, 2000)".

Aspectos psicóticos são aspectos relativos à psicose, ou seja, referentes à ocorrência de delírios, alucinações, fala acentuadamente incoerente ou comportamento desorganizado e agitado sem conhecimento aparente, por parte do paciente, da incompreensibilidade do seu comportamento.

Continua esse mesmo livro: "Os dados obtidos de pesquisa clínica que respaldam a eficácia dos antidepressivos para a depressão maior do adulto geralmente são convincentes (Burke e Preskorn, 1995)... Todavia, diversas deficiências continuam a ser associadas a todos os fármacos (repare, leitor: a todos os fármacos ou remédios, todos!) utilizados no tratamento dos distúrbios afetivos".

Não pretendemos cansar o leitor mas é preciso que transcrevamos tudo (ou quase tudo) ou seremos acusados de manipular informações, e nosso propósito não é combater, mas auxiliar no esclarecimento.

É preciso explicar ao público não habituado a esse tipo de texto que, quando é colocado entre parênteses o nome de um autor, seguido de um ano, isso significa que naquele ano esse autor publicou um trabalho científico numa revista, como, por exemplo, o Jornal Americano de Psiquiatria, ou outra publicação.

Mais adiante, ainda na página 450: "Um importante problema, relacionado com os antidepressivos é que, como as taxas de resposta ao placebo tendem a ser tão altas quanto 30% – 40%  (observe-se bem, 30% a 40%), entre indivíduos diagnosticados com depressão maior (Healy, 1997) e, possivelmente, ainda maiores em alguns distúrbios de ansiedade, é difícil provar distinções estatísticas e clínicas entre droga ativa (o remédio) e placebo (um comprimido qualquer, por exemplo, que não contém medicamento)  (Fairchild et al., 1986)".

Na página 451, o leitor encontrará o seguinte, caso consulte essa obra: "Estudos pediátricos têm falhado em mostrar superioridade das drogas antidepressivas sobre o placebo, particularmente com os antidepressivos mais antigos, porém, também com a maioria dos inibidores da recaptação de serotonina (mais modernos) e o futuro do uso dos antidepressivos tricíclicos (estão entre os mais antigos, citados antes) em crianças é incerto (Hazell et al., 2002; Whittington et al., 2004)".

Ainda na página 451, esse livro de farmacologia diz: "A despeito da falta de consistência e de eficácia convincentemente demonstrada, os modernos antidepressivos têm amplamente substituídos os antigos antidepressivos tricíclicos como opção de primeira linha em crianças, adolescentes e em idosos, em grande parte, devido a sua relativa segurança (Montano, 1999)". Segurança apenas relativa, repare-se.

Antigos antidepressivos tricíclicos são substâncias utilizadas como antidepressivos há mais tempo que os modernos e que têm estrutura molecular que faz com que tenham essa denominação – tricíclicos. Repare-se que os modernos substituíram os tricíclicos por serem mais seguros, mas isso não significa que sejam necessariamente eficazes, pois, segundo o texto, não há eficácia convincentemente demonstrada.

E dizem ainda não se interessar pelo estudo do espiritualismo por este não ser convincentemente demonstrável!

A tudo isso acrescentamos que o leitor precisa saber que há efeitos colaterais do medicamento. Exemplo: um dos antidepressivos mais modernos pode causar disfunção (mau funcionamento) sexual, com dificuldade de ejaculação em homens e ausência de orgasmo em mulheres. Não queremos fazer apologia, como cultores extremados do sexo, mas "curar" (repare-se que colocamos entre aspas) depressão com risco de prejudicar uma relação saudável, que, se esclarecida, é de amor e reforça os alicerces íntimos de nosso eu? Há ainda muitos outros efeitos colaterais.

Por que tudo isso? É a ciência médica mal intencionada? Não. Tem a sinceridade, ela mesma, de dizer o que aqui transcrevemos.

É na falta de opções melhores (pela teimosia da ciência médica em não estudar o espiritualismo científico) que ela lança mão desses medicamentos. Falta-lhe romper a barreira que a afasta do espiritualismo científico para compreender as verdadeiras causas da doença mental.

Desculpe-nos, leitor. Não falamos das verdadeiras causas da depressão como havíamos prometido no artigo anterior, por acreditarmos ser o tema acima abordado muito mais útil para o momento. Até o próximo mês!

(O autor é militante da Casa-Chefe, médico da UFRJ, professor adjunto da UGF)

Página principal | Arquivo