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Antonio Cottas, homem que fez da simplicidade sua maior virtude
Começamos outro novembro e com ele a grata missão de relembrar aos nossos leitores a impagável figura do Consolidador do Racionalismo Cristão, mas este novembro é diferente porque em 2005 se completa um século de sua chegada ao Brasil. Ainda menino – 12 anos de idade – vindo de Sirvuzelo, Concelho de Monte Alegre, Portugal, mal poderia imaginar sua grande missão e os grandes desafios que o esperavam no Brasil.
Aos 25 anos de idade conheceu o Racionalismo Cristão e ali sua vida começou a se transformar. Lembro-me dele contando que, na primeira vez que foi ao Centro Redentor, impressionado com as explanações do Mestre Luiz de Mattos, teve seu pensamento refletido na mesa dos trabalhos dizendo algo como: "Se esse homem fosse explanar esses Princípios mundo afora eu iria atrás". Luiz de Mattos respondeu, evidentemente sem saber a quem, mais ou menos assim: "Não preciso que ninguém venha atrás de mim. Se ele está convencido da Verdade, que trabalhe pelo esclarecimento da humanidade, como eu estou fazendo". Dali por diante, foi exatamente o que ele fez diuturnamente, durante 57 anos.
Antonio Cottas foi incansável na defesa dos Princípios do Racionalismo Cristão
e também do patrimônio da Doutrina. Essas atitudes já o credenciariam para ser um dos maiores discípulos de Luiz de Mattos, mas ele tinha muito mais para transmitir aos seus semelhantes, e o fez através do seu exemplo de homem digno e honrado, de esposo carinhoso, de pai extremoso, de amigo leal e, acima de tudo, de doutrinador emérito e de conselheiro para todas as horas.
Os que não podiam ir à Casa Chefe do Racionalismo Cristão para ouvir suas magníficas e sensatas doutrinações a ele escreviam, e recebiam cartas sempre com palavras de incentivo, de orientações precisas, dadas por um homem experiente e dotado de inteligência ímpar. As respostas de Antonio Cottas, quando chegavam, nos mais longínquos lugares do planeta, eram consideradas verdadeiros códigos de vida, e aqueles conselhos, se postos em prática, transformavam pessoas, modificavam comportamentos e levavam o esclarecimento espiritual, tão necessários, a todos.
Em minha família, nosso pai, ainda jovem, após ler o livro A Vida Fora da Matéria, que tomou emprestado da namorada – minha futura mãe – escreveu a Antonio Cottas e recebeu graciosamente outros livros e muitas orientações que nortearam sua vida e, claro, a nossa também. A correspondência marcante em nossa família, vinda daquele interior de São Paulo na década de 60, foi quando nossa avó ficou doente e meu pai, transtornado, pediu um conselho urgente a Antonio Cottas. Este, na mesma semana, sabiamente, orientou nosso pai a não transferir vovó Nega, como carinhosamente a chamávamos, para São Paulo para submetê-la a uma cirurgia. Aconselhou que ela ficasse "cercada do carinho dos familiares até seus últimos momentos".
Assim foi feito e, dias depois, ela faleceu devido ao estágio avançado de uma doença incurável. Quanta sabedoria!
Relatamos essa história pessoal para destacar a importância dos milhares de cartas que o inesquecível Mestre Antonio Cottas respondia e o quanto, repetimos, elas transformavam a vida de milhares de pessoas.
Fico imaginando se, à distância, recebemos tanto carinho, orientação e ensinamentos, quanto não teriam recebido os que tiveram o privilégio de com ele conviver? Nem precisamos imaginar, basta nos lembrarmos dos depoimentos emocionados do dr. Humberto Machado Rodrigues, nosso presidente perpétuo, nas duas últimas décadas, em todas as oportunidades em que ele pôde reverenciar a memória e os feitos do seu Mestre Antonio Cottas, desde o berço.
Sempre mencionamos em nossos pronunciamentos que Antonio Cottas foi o maior escritor do Racionalismo Cristão sem nunca ter tido um livro com seu nome na capa. Somente através do título Cartas Doutrinárias, desde 1932, foram 25 volumes editados pelo Racionalismo Cristão, com mais de 3 mil cartas, cuidadosamente selecionadas entre as dezenas de milhares que ele respondia, sempre com verdadeiras lições de vida. Aí está, portanto, amigos, uma prova inconteste da humildade e simplicidade desse baluarte, o que justifica o título desse nosso relato.
Para que nossos amigos leitores possam aquilatar a importância que atribuímos aos livros Cartas Doutrinárias, o sábio Antonio Flor, fundador da Filial São Paulo do Racionalismo Cristão, certa vez nos chamou à mesa dos trabalhos e nos disse: "Leia esse livro Cartas Doutrinárias que hoje você vai presidir os trabalhos". Foi a primeira vez que presidi uma sessão pública, e nunca mais esqueci a lição do Sr. Flor.
Neste novembro vamos lançar a 26a edição das Cartas Doutrinárias. Trata-se do último acervo disponível das cartas respondidas por Antonio Cottas, escolhidas e ordenadas pelo presidente internacional do Racionalismo Cristão, dr. Humberto Machado Rodrigues. Acreditamos, dessa forma, estar fazendo justa homenagem ao querido Mestre Antonio Cottas, pois vamos colocar seu nome na capa, como autor, que ele sempre foi, desse acervo magnífico que constituem os livros Cartas Doutrinárias.
Para finalizar, vamos falar do homem Antonio Cottas. Aquele cidadão simples, humano, amigo de todas as horas. Alguém que tinha prazer em ver seus convidados se deliciarem com seus "queijos da serra" e outras iguarias à sua mesa, sempre farta de alimentos naturais e atenção aos que tiveram a satisfação de com ele conviver. Infelizmente, nós apenas uma vez privamos dessa alegria, mas, confesso, isso marcou minha vida. Tanto que nos lembramos desse dia como se fosse hoje.
Confirmando aquela figura simples e despojada, como todos os seres humanos deveriam ser, Cecílio Longhi – outro grande mestre e amigo em nossa vida – presenciou uma cena do Mestre Antonio Cottas, digna de relato. Vamos a ela: após a solenidade de inauguração da nova sede de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 8 de dezembro de 1968, houve confraternização com um churrasco típico gaúcho num sítio da cidade. Cecílio, ao notar o nosso Mestre sentado num caixote de madeira, sem paletó e gravata e as mangas da camisa arregaçadas, fazendo sua refeição, a ele se dirigiu, dizendo: "Sr. Cottas, não tem cabimento o senhor sentando de forma tão desconfortável. Vou arrumar melhores acomodações para o senhor". O sr. Nascimento, como era tratado pelos amigos, de forma carinhosa, mas enérgica, respondeu: "Estou bem aqui! Muito obrigado!
Amigos, dessa forma simples e singela, estamos homenageando o querido Mestre Antonio Cottas como sempre o faremos em 19 de novembro, data da sua feliz vinda à Terra, naquele distante e importante ano de 1892.
Gilberto Silva
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