Vieira, exemplo de caráter -1

Sérgio Lima

Aos 17 anos dominava o Latim e já era professor de Retórica

O dia 6 de fevereiro marca o nascimento, na Lisboa de 1608, de Antonio Vieira, o nome de maior importância para o idioma português, depois de Camões, célebre pela obra de escritor legada à posteridade e muito admirado por sua privilegiada veia oratória. Esta circunstância lhe valeu o título, dentre muitos outros que recebeu, de ser um verdadeiro orador crisóstomo, ou seja, aquele que tem o verbo de ouro.

Chegou Vieira, ainda menino de tenra idade, ao Brasil, acompanhado dos pais. Desembarcou em Salvador e ali iniciou seus estudos no então Colégio dos Jesuítas. Dessa fase, chega-nos a história, ainda muito lembrada, a respeito do mediano desempenho demonstrado mas logo revertido, após ocorrer-lhe algo como que um estremeção na cabeça, e dali em diante haver apresentado considerável melhora no aprendizado e, por isso, suscitado por parte de colegas e professores enorme felicidade e admiração. Não se sabe se o fato ocorreu, mas dele se originou, supõe-se, um repetido refrão: "fenômeno do estalo de Vieira".

Sua biografia, composta por considerável quantidade de documentos, registra que, aos 17 anos, surpreendia pela prodigiosa inteligência demonstrada no completo domínio do Latim, como na igual profundidade em disciplinas como Filosofia, Teosofia e Teologia, tudo quando já ocupava o lugar de professor de Retórica na Escola do Seminário de Olinda, em Pernambuco. Desde então granjeou enorme fama de orador, não só no Brasil, como no exterior.

Em 1640, aos 32 anos, viajou a Portugal, em companhia de D. Fernando Mascarenhas, como enviados brasileiros às homenagens prestadas ao novo soberano, D. João IV, de quem viria a ser o futuro confidente e conselheiro particular.

Naquela oportunidade pronunciou o seu importante Sermão sobre o Bom Sucesso das Armas de Portugal, relacionado com as campanhas holandesas no Brasil. Esse feito lhe valeu ser nomeado pregador oficial da Corte, além de receber do rei importantes encargos para o cumprimento de missões diplomáticas das quais, em razão do seu correto e brilhante desempenho, veio a ser, por um lado, alvo do especial reconhecimento da Coroa e, por outro, vítima da reação invejosa e desconfiada de muitos dos seus influentes membros.

A obra escrita deixada por Vieira –, composta por mais de uma vintena de volumes, inclui, além dos admiráveis Sermões, uma quantidade enorme de Cartas, mais de cinco centenas – estende-se por escritos de conteúdo literário, político, e historiográfico, produzidos estes últimos quando a serviço nas diversas missões diplomáticas de que participou a mando do rei no exterior, em defesa dos interesses e negócios de Estado português.

(O autor é Professor e Diretor da Casa-Chefe)

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