Padre Antonio Vieira

Ernani de Castro

Livrou-se da fogueira, mas foi encarcerado

No sermão pela vitória de Portugal contra a Holanda, ou pelo bom sucesso das armas de Portugal contra os holandeses, padre Antonio Vieira faz uma interpelação direta e imprevista a Deus, dando-nos a impressão de que, embora fosse um ministro da Igreja, começava a duvidar das "proteções divinas...".

Pela energia das palavras proferidas em seus sermões, dirigidas a Deus, o grande Vieira mais reclamava do que mesmo suplicava a sua presença para livrar a Bahia do cerco holandês, demonstrando não acreditar muito em melosidades religiosas e, menos ainda, no fanatismo com que foi montada a Santa Inquisição, que o pressionou durante nove anos, mais tarde, quando ele contava com 41 anos de idade. O motivo foi a divergência de pensamentos entre os materialistas da vil Inquisição e a alta espiritualidade do Imortal Vieira.

Esse "tribunal" criado por fanáticos religiosos, transformados em desalmados assassinos, conseguiu pegar Vieira 14 anos mais tarde, e o teve em suas garras por mais de quatro anos, dois dos quais passados num pequeno cubículo de 15 palmos por 12, e o teria matado na fogueira, como fez com Joana D'Arc e algumas centenas de pessoas inocentes, se não tivesse ocorrido uma mudança na situação política de Portugal, que fez com os algozes se acovardassem.

No dizer de Ramalho Ortigão, Vieira seria um bife fraudulentamente seqüestrado à frigideira do Santo Ofício.

Sobre o imortal padre Vieira, disse o ilustre escritor Paulo Filho: "Vieira precede a Pombal, ao pretender cercear a Inquisição. Mas, ao contrário do ministro onipotente, foi por ela encarcerado e por pouco atirado vivo à fogueira..."

A época é cheia de perigos. Enquanto em Londres, Hobbs, que se presumia um novo Bacon, escrevia o seu Leviatã, os ingleses, impacientes, foram logo se antecipando e cortaram a cabeça do rei... Pagou caro a audácia de dizer o que sentia e de não usar de outra linguagem ao monarca que restaurou a independência, senão a da sinceridade e da lealdade.

(Edição de 19 de maio de 1981)

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