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Até quando o aprendizado?
Clecy Ribeiro Um mergulho na intolerância ou o empenho em ações que dêem significado à vidaTodos os dias, de todas as formas, estou cada vez melhor – mantra do psicólogo Emile Coué, inspirou o autor ambientalista Indur M. Goklany na defesa da tese sobre o inelutável progresso da humanidade, acelerado de duas décadas para cá. Vivemos mais, com mais saúde e conforto, num planeta mais limpo. Problemas existem, sim – constata –, mas não são um fenômeno novo; os ganhos superam desastres iminentes. Essa visão, para muitos mitológica, fundamenta-se na idéia de que é possível concretizá-la. Esbarra nos céticos e sua imagem dos problemas prementes contemporâneos, cuja solução arrasta-se, presa ao (des)ordenamento global. Ainda há Estados fracos e decaídos, falhas retumbantes na democracia representativa e desafios geopolíticos; fermenta-se o radicalismo nas sociedades islâmicas; cresce o afã por armas nucleares e controle da Internet, piora o aquecimento global. Faltariam ao mundo racionalidade e eqüidade, relativismo moral, valores. Sobrariam ganância, barbarismo, intolerância, insensatez. Teses esposadas por acadêmicos, ganhando adeptos, pregam o indivíduo despojado de individualismo, admitindo-se "ligado" aos demais, à sociedade, história, a seus próprios fantasmas. Que aceite as regras que lhes permitirão viver harmônicos, condição mesma da perenidade da democracia. Dar relevância à vida, como quer o acadêmico Hélio Jaguaribe, compatibilizando interesses individuais e globais, caminho para uma grande confederação planetária. O século XX é tido como o mais sangrento da história universal, a julgar pelas duas guerras mundiais e uns 30 a 40 conflitos de menor amplitude. Os ingredientes de fricção permanecem, em que pesem tempos de progresso material sem paralelo, mas sem eqüidade. O desenvolvimento industrial global produziu danos, alguns considerados irreparáveis. Como a biosfera degradada, por exemplo. Ninguém ousa, ou sabe ao certo, antecipar os riscos na esteira. Riscos que a época parece ter tornado mais ameaçadores. Diferentes filosofias sustentam uma sociedade global inovadora. Persistem os desequilíbrios entre sociedades afluentes e miseráveis. Também o desencontro das políticas públicas e a sociedade tecnológica de massa. Não há (algum dia haverá?) regimes políticos perfeitos. As sociedades de massa – Rússia e China – ascendem como regimes capitalistas autoritários, tidos como via alternativa viável para a modernidade. Um tipo de regime bem sucedido economicamente, mas ausente desde a derrota da Alemanha e Japão, em 1945. A democracia liberal ainda não se afirmou. A esperança em seu futuro repousa, por ora, nos Estados Unidos aliados à Europa. E, se importa a Índia, e muito, como modelo para outros países em desenvolvimento, a tendência indica: longe ainda a paz universal. A nação se torna pequena demais para resolver grandes problemas e grande demais para lidar com os pequenos, lembra o sociólogo norte-americano Daniel Bell. Faz bem uns dez anos, o pesquisador norte-americano Michael T. Klare (questões referentes à paz e segurança) alertava sobre conflitos do momento, vinculados também a recursos naturais, motor das modernas sociedades industriais. Seus efeitos já são flagrantes: o inominável e ignóbil Darfur e seus 400 mil mortos; um Iraque espirrando para os países vizinhos; Palestina e Mesopotâmia, de previsões macabras. "Ao horror de morrer soma-se, imagino eu, o de morrer por nada". (Bernard-Henry Lévy). Mas deixemos que vozes confiantes reforcem a mantra de Coué. Como a de Anthony Giddens, pensador britânico: "Podemos legitimamente alimentar a esperança de que uma perspectiva cosmopolita acabará por vencer". Ou de Jaguaribe: "Apostar na superação dos macro-problemas com que se defronta o homem é confiar na sua transcendência". A autora é jornalista |
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