Arrependimento, pensamento positivo
A culpa inculcada em nossa consciência é negativa

Caruso Samel

O arrependimento é um sentimento positivo que resulta da conscientização que operamos em nosso ser ao reconhecermos as nossas faltas e erros. Esse reconhecimento é quase sempre muito doloroso, mas não há nada na vida que o espírito não possa suportar, sendo, portanto um ato reparador, que regenera e purifica o espírito. Por isso mesmo, o arrependimento não deve ser encarado como uma autopunição.

O mais importante é tomarmos consciência de nossos erros e não errarmos mais, não cometermos o mesmo erro duas ou mais vezes seguidas. Errar conscientes de que estamos praticando o mesmo erro resulta em falta mais grave, inadmissível para a evolução da criatura.

Então, precisamos melhorar nossas atitudes e posturas. Para isso, tem que haver sinceridade no arrependimento. Em cada caso, a criatura precisa ser verdadeira consigo mesma, sabendo que é preciso reparar as faltas para poder livrar-se do arrependimento que delas se originou.

Precisamos entender e compreender que, enquanto o arrependimento sincero é reparador e transformador, a culpa inculcada em nossa consciência é negativa; por isso, manter esse sentimento sem nada fazer, sem refletir quanto à ação corretiva a tomar, pode trazer conseqüências imediatas irreparáveis à criatura.

O que estamos querendo dizer é que a culpa, por si só, representa apenas um alerta ou um grito em nossa consciência. É preciso que transformemos este alerta em ação através do arrependimento sincero, o qual virá fortalecer e renovar a nossa vontade para reconhecer e evitar aquele erro ou erros semelhantes e associados.

Através da reparação de um erro, qualquer que seja, estamos nos preparando para nos reconhecermos verdadeiramente falíveis, estamos reconhecendo que somos imperfeitos, mas também, e isso é mais importante, estamos prontos, preparados e condicionados para sairmos da condição onde estamos (errados) para uma condição íntima melhor e reparadora, e isso nos traz um grande alívio.

Se houver acomodação ao erro, estaremos fugindo do sentimento de culpa, sem o reforço da nossa consciência. Só o arrependimento sincero promove a verdadeira reparação. O arrependimento é, portanto, o primeiro e decisivo passo dado para a nossa reforma íntima, saneando e reforçando a nossa vontade.

Vemos, portanto, que para tratarmos do sentimento do arrependimento temos que examinar como age o sentimento de culpa, já que aquele é conseqüência deste.

Existem mecanismos e técnicas para reconhecermos o sentimento de culpa, mas a principal condição é reconhecermos que, quando a responsabilidade da criatura não é por ela levada a sério, muitos atos se praticam, lesando o nosso semelhante de uma forma ou de outra. Isso nos leva a um maior ou menor sentimento de culpa, que varia de acordo com o nosso grau de espiritualidade. Por isso é que recomendamos às criaturas fazerem uma auto-análise diariamente, ao deitar-se, interrogando sua consciência, passando em revista suas atitudes, atos e procedimentos havidos durante o dia. Assim, poderá passar a limpo suas ações, reconhecendo seus erros e corrigindo-os o quanto antes ou no dia seguinte, se possível.

Outra diferença que precisamos esclarecer é a que existe entre o arrependimento e o remorso. O arrependimento é um desencargo da consciência que ocorre sempre que reconhecemos o mal que provocamos a nossos semelhantes; o remorso é a postura do arrependimento mal compreendido, é a reação ao arrependimento sincero, trazendo repercussões negativas sobre nossa auto-estima. Verifica-se, assim, que o remorso é um mal maior, sempre deletério, que leva ao desgosto e ao aparecimento de depressões. O remorso fica recalcado e não leva à renovação de nosso íntimo, tarefa que fica para o arrependimento sincero que em teologia é conhecido como contrição ("ato de arrepender-se perante o Ser Supremo..."). Enfim, contrição e compunção ("pesar por haver cometido pecado ou má ação...") são palavras de cunho religioso usadas no lugar de arrependimento e todas têm o mesmo significado, que é o de um profundo pesar pelas más ações que a criatura tenha praticado e delas resiste em arrepender-se. De outro lado, lexicamente, remorso é, segundo o Novo Aurélio da Língua Portuguesa, "inquietação da consciência por culpa ou crime cometido, remordimento, bicho-da-consciência".

Outro aspecto que não poderíamos deixar passar em branco é com relação à palavra pecado - transgressão de caráter religioso por falta, erro ou vício e culpa propriamente dita. Assim, transformar culpa em pecado é um recurso das religiões para manter sobre as criaturas o domínio pelo medo e pela repressão, esta com o objetivo de manter os fiéis desgostosos e revoltados eles mesmos. Nós preferimos continuar adotando o termo culpa, aliás já consagrado vulgarmente e também pela jurisprudência e pela psicologia, que tem o sentido da responsabilidade para educar o espírito a não fazer o mal, a não reincidir no erro.

A culpa sinceramente reconhecida tem que ser uma atitude de alegria, não de depressão; de compreensão, não de lamentação; de esperança, não de desespero; de renovação íntima do ser, não de condenação. Enquanto o pecado, (armatia, palavra oriunda do grego e que tem o significado de "afastar-se da meta") condena, a culpa redime o ser.

Há, ainda, necessidade de comentar o erro cometido por ignorância. Quem o comete pode ser considerado culpado? Socialmente falando, quem desrespeita a lei comete erro, ainda que a desconhecendo. Diz a lei que a ninguém é facultado ignorar a lei. Individualmente falando, é preciso, antes, ter em mente a noção do certo e do errado, e isso é racional, diz respeito ao espírito, sendo, portanto, lógico. Trata-se aqui do erro eventual, por ignorância, restringindo o crescimento moral da criatura. É claro que esta precisa evoluir material e espiritualmente. Embora não possa ser considerada culpada em certas circunstâncias (segundo a lei: menores, silvícolas, doentes mentais), deve a criatura esforçar-se para considerar tais erros como formas apenas toleradas de aprendizado, desde que o erro só moleste a si mesma, não atingindo o seu semelhante.

Finalmente, certas religiões falam do "pecado original" como o grande erro, responsável pelo sofrimento da humanidade, e propalam que todo o erro original perpetuado por todas as criaturas até o aparecimento de Jesus Cristo recaiu sobre ele. Onde está o princípio da justiça universal? Para que esta exista, as penas que alguém sofre têm que ser por seus próprios erros. Estes e as culpas deles resultantes são intransferíveis e cada um tem que pagar pelo que fez.

Assim como o mal praticado por alguém retorna ao ponto de partida, o bem tem-no quem o merece. Esta é a justiça universal que alcança a todos como lei maior e inexorável – a lei de causa e efeito. Ela determina que tudo o que fazemos ao próximo retorna a nós, num mecanismo de perfeita justiça. Essa lei natural é, ao mesmo tempo, benfazeja, majestosamente justa e punitiva. Benfazeja para os benfeitores e punitiva para os malfeitores. Daí, a mensagem de Jesus: "Amai-vos uns aos outros".

(O autor é Militante da Filial Butantã, São Paulo, SP)


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