As mônadas de Leibniz - 2

Caruso Samel

Teria Luiz de Mattos, ao codificar o Racionalismo Cristão, se inspirado, também, em Leibniz? 

Sob a temática Filosofia e Ciência: as mônadas de Leibniz, examinamos na edição anterior vários aspectos sobre o que são as mônadas, fundamentados no conceito essencial estabelecido por Leibniz na obra Princípios da Filosofia – Monadologia, quase no fim de sua vida, em 1714. Estamos, agora, dando continuidade a esse tema, considerando, também, as idéias adotadas por outros filósofos racionalistas e humanistas do século XVII e sua relação com os fundamentos do Racionalismo Cristão.

Para isso, retomemos o pensamento de Spinoza, que, como vimos na primeira parte, quando se referia às mônadas, falava em espiritualidade. Deduz-se daí que ele estava se referindo ao homem e à humanidade. Por outro lado, Leibniz propôs que o mundo consiste somente de um único tipo de substância (gênero), ou seja, um único e verdadeiro ser que é a Natureza e tudo que nela existe, ou Deus, porém existe uma variedade infinita de substâncias (espécies ou partículas) desse tipo.

A dualidade interna das mônadas, em parte material e em parte espiritual, faz com que elas participem, ao mesmo tempo, de um mundo espiritual e de um mundo físico, o que é parecido com a idéia de que o material e o espiritual são "as duas faces de uma mesma substância", como pretendia Spinoza. Devemos lembrar que ambos, Spinoza e Leibniz, se referiam ao mundo Terra e sua natureza, pois na época pouco se conhecia do Universo. Lembramos, ainda, que Spinoza tornou-se ateu já na sua juventude, tendo sido expulso de sua comunidade judaica.

Vemos, assim, que a dualidade para Leibniz, Spinoza e Descartes não tinha o mesmo significado, sendo o conceito cartesiano de dualidade muito mais radical, isto é, lógico e matemático. Leibniz contesta Descartes sob dois aspectos, dizendo que os cartesianos erraram em supor duas substâncias isoladas, a substância extensa (Matéria) e a substância espiritual (Força) e erraram também por reduzirem a matéria simplesmente à extensão, isto é, tudo que ocupa lugar no espaço. Quanto ao primeiro aspecto, nas mônadas, que são a única substância, coexistem as duas naturezas, a material e a espiritual, de modo que tudo contém seu grau de materialidade e espiritualidade, sem que isto represente uma dualidade radical, como pretendia Descartes. 

MOVIMENTO. Quanto ao segundo aspecto, Descartes não se ocupa da Força, mas apenas do movimento, mera mudança de posição de um objeto em relação às suas coordenadas iniciais (cinemática, um capítulo da mecânica). O movimento visível não é um simples movimento local observado; ele deve ser o resultado de uma Força, ou seja, é produzido por uma "força viva", que está na mônada. Já o conceito de Leibniz é uma formulação na qual, ao contrário da concepção mecanicista-cartesiana, o movimento não é criado por uma energia cinética, mas existe como parte intrínseca da mônada. A chamada matéria, na sua essência, contém também Força. Leibniz substitui a idéia de uma natureza estática e inerte por uma idéia dinâmica; em contraste com uma física da extensão, retomando o pensamento grego de que é na natureza que se encontra o princípio do movimento. Ao contrário de Descartes, Leibniz (1675) considera os seres como forças vivas, não como máquinas. A noção de substância sempre foi essencialmente de coisa inerte que não explica a resistência que a matéria oferece ao movimento. Lembramos que os três foram contemporâneos e Leibniz chegou a encontrar-se com Spinoza, na Holanda.

Leibniz rejeita a posição dualista de Descartes da independência entre uma substância material e outra espiritual, bem como rejeita igualmente a posição monista materialista de que o pensamento e a consciência estão no campo puramente material e mecânico.

No seu livro Hypothesis Physica Nova (1671), Leibniz diz que o movimento deriva, como havia sustentado o astrônomo alemão Johannes Kepler, da ação do espírito (Deus). Além do princípio de que as mônadas compõem todas as coisas do mundo exterior, existe a experiência interior, a experiência da consciência, a qual não pode ser explicada por números ou movimento puramente mecânico, como querem os cientistas.

Depois de definir a substância como ação, Leibniz explicou que a ação essencial da substância é a representação.

A atividade contínua da mônada é o esforço de se realizar, representar a si mesma como consciência, adquirir sempre mais consciência daquilo que virtualmente contém em si mesma à medida que evolui. Apesar de sua quantidade no Universo ser infinita, cada mônada é totalmente diferente uma de outra. Subentende-se, aqui, o conceito de individualidade. Elas variam também em seu poder de representação, que pode ser assimilado como sendo o grau de espiritualidade, sobejamente conhecido dos racionalistas cristãos.

A forma mais primitiva do poder de representação é a percepção, realizada por meio dos sentidos físicos, que compreende uma representação confusa e obscura de si mesma. Já a forma mais evoluída, a percepção, consiste na representação clara perante si mesma através da consciência de si mesma, isto é, a parte espiritual dos sentidos, representada pelos atributos essenciais do espírito.

Para concluir, a mônada não tem extensão, não é divisível, não é material. É unidade sem partes, que forma os compostos; é a essência das coisas. Mônada é força, é energia, vigor. As mônadas são unidades de força. Não força física, mas capacidade de atuar, de agir. No Racionalismo Cristão, é o próprio espírito com o seu corpo astral, ou perispírito.

(O autor é Militante da Filial Butantã - SP)

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