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As mônadas de Leibniz
Caruso Samel O elemento material corresponde à passividade da matéria-prima A filosofia moderna nasceu como conseqüência e como necessidade à época do racionalismo de René Descartes (1596 -1650), englobando e reestruturando conceitos mais avançados e seguros de metafísica, ética, moral, política, Força e Matéria, espírito e corpo, consciência, causalidade, substância etc. Muitos desses conceitos, principalmente sobre a exata compreensão da dualidade espírito-corpo, da consciência e de milhares de fenômenos a eles associados, constituem, ainda hoje, um grande desafio para a ciência. O Iluminismo, que seguiu paralelamente ao racionalismo e com ele conviveu, veio completá-lo sob muitos aspectos. Tendo surgido na França do século XVII, defendia o domínio da razão sobre a visão teocêntrica (Deus como o centro de tudo), que dominava a Europa desde a Idade Média. Os filósofos iluministas que defendiam esses ideais acreditavam que o pensamento racional deveria ser levado adiante substituindo as crenças religiosas e o misticismo, que, segundo eles, bloqueavam a evolução do homem. O Iluminismo teve, portanto, o propósito de iluminar as trevas em que se encontrava a sociedade daquela época. Alguns pensadores e cientistas tinham o conhecimento de um enciclopedista, como os iluministas Diderot (1713-1784) e D'Alembert (1717-1783), criadores da Encyclopédie, composta de 36 volumes, iniciada em 1751 e concluída em 1772, obra que sintetizava todo o conhecimento humano e as idéias libertárias vigentes à época. Embora iniciada por René Descartes, pai da filosofia moderna, em meados do século XVII, a separação entre filosofia e ciência, como conteúdo pragmático, é muito recente e veio a consolidar-se em meados do século XIX. Daí em diante, esse movimento de separação levou à fragmentação e à especialização do conhecimento, com predomínio da ciência sobre a filosofia. Por isso, os pensadores anteriores a 1850, que se dedicavam à especulação metafísica do desconhecido ou ao estudo da natureza, eram todos tidos como sábios e não como filósofos ou cientistas, ou mesmo intelectuais, conceitos estes de introdução muito mais recente. FORÇA INTELIGENTE. Voltemos novamente na linha do tempo. Na segunda metade do século XVII, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), na Alemanha, um dos três grandes filósofos racionalistas, refletiu profundamente sobre o significado de substância, o que o levou a introduzir o conceito de mônada. Para isso, inspirou-se, por analogia, na teoria atomista de Demócrito e também nas idéias de Giordano Bruno. Segundo ele, "para que uma coisa seja realmente um ser – uma substância – precisa ser verdadeiramente única, precisa ser uma entidade dotada de genuína unidade. Unidade substancial requer uma entidade indivisível e naturalmente indestrutível". As mônadas são, portanto, verdadeiras unidades de força. Ora, a matéria, como nós a percebemos, é extensa (ocupa lugar no espaço) e infinitamente divisível (inclusive o próprio átomo – unidade fundamental da matéria), logo, a matéria não pode ser a verdadeira substância, isto é, a essência dela mesma. A essência é única (gênero, representada pela Força fundamental) e, ao mesmo tempo, individualizável (espécie – o mundo físico, representado pela matéria fundamental), indivisível, eterna e inesgotável. O ser verdadeiro deve ter unidade (Força) e, como os corpos (Matéria) são extensos e divisíveis, não representam essa unidade (Força). A partir desse raciocínio lógico, quase palpável, Leibniz criou o conceito de mônada. A unidade está nas mônadas, que são pontuais (partículas da Força) e indivisíveis, e assim respondem pela realidade das coisas e dos seres. Força e Matéria, quando unidas, representam a nossa realidade física, atuando sempre a Força sobre a Matéria que, com relação ao movimento, é inerte. Os termos Força e Matéria, grafados com as iniciais maiúsculas, foram por nós introduzidos aqui e nas considerações que se seguem, no sentido de atualizar esses conceitos e mostrar o alcance e semelhança da idéia de Leibniz diante do conceito Força e Matéria, introduzido bem mais tarde pelo nosso mestre Luiz de Mattos como princípio básico do Racionalismo Cristão. Teria Luiz de Mattos se inspirado, também, em Leibniz? A palavra "mônada" significa "unidade" (vem do grego monas). O termo foi usado, primeiro, pelos pitagóricos, como sendo o nome do número inicial (número um) de uma série de números inteiros. Daí se inferir que as mônadas são verdadeiras unidades de força. FORÇA E MATÉRIA. Falemos um pouco mais das mônadas. De que são feitas? De dois elementos: um material (Matéria) e um espiritual e dinâmico (Força), que no seu conjunto formam sua natureza específica. Força e Matéria são inseparáveis e atuam em conjunto nos mundos físicos (como na Terra, por exemplo), enquanto uma determinada força (individualizada) atuar sobre uma determinada matéria (individualizada). Neste sentido, Força e Matéria variam quantitativamente, isto é, cada mônada tem uma relação de quantidade diferente entre o que possui de material (propriedades) e de espiritual (atributos ou qualidades intrínsecas – por nós melhor chamados de valores e não de quantidades). Essa relação depende de qual corpo a força individualizada e a matéria individualizada constituem, se um corpo bruto de uma pedra (reino mineral) ou o corpo de um ser vivente (vegetal ou animal, inclusive o próprio homem). Todas as mônadas (Forças) são eternas, imortais. Porém, toda mônada (Força), quando atuando sobre a matéria mineral ou organizada (seres viventes), conserva sempre certo grau de passividade – sua imperfeição, da qual a mônada criada (na forma conjunta de Força – Matéria) só se libertará como Força por meio da evolução. A matéria essencial concebida em abstrato (Matéria) é a matéria em si mesma, de todo passiva, sem nenhum princípio de movimento. A matéria secundária é aquela que contém em si um princípio de movimento nela incorporado, que é o princípio vital nos seres mais avançados, ou seja, a Força no seu conceito mais potencializado de evolução. Assim, à matéria-prima de todo passiva, dotada apenas de extensão (como queria Descartes), Leibniz se contrapõe introduzindo o conceito de matéria secundária, que contém a Força ativa incorporada, dotada de ação, no caso do homem, corpo e espírito. Vê-se, pois, que o elemento material na mônada corresponde à passividade da matéria-prima e a matéria secundária contém a forma nela impressa pela Força. O elemento imaterial corresponde à atividade da forma manifestada na substância, dada pela Força, que é, na escala humana, uma alma, um espírito que busca a perfeição. Segundo Baruch Spinoza (1632-1677), "sendo as mônadas indivisíveis não possuem extensão, que é uma propriedade exclusiva da matéria, esta, sim, sempre divisível. Essas mônadas essenciais não podem deteriorar-se, nem ser dissolvidas (têm vida eterna) e também não dependem de qualquer composição. Constituem a verdadeira substância (essência), porém variam em si mesmas, no seu grau de espiritualidade, e assim podem constituir substâncias diversas de Deus e próprias de cada coisa". Vemos, assim, que os conceitos de mônadas expressos por Leibniz e por Spinoza lembram bem de perto o mesmo conceito que o Racionalismo Cristão empresta à partícula do Grande Foco, indivisível, indestrutível e eterna, que, no homem, é o próprio espírito e nos demais seres da natureza é representada pela Força Inteligente. (O autor é Militante da Filial Butantã - SP) |
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