As várias faces da corrupção

Clecy Ribeiro

Já houve quem comparasse o combate anticorrupção à tarefa do criminoso rei de Corinto, Sísifo, condenado a empurrar eternamente, encosta acima, enorme pedra que cai sempre antes de atingir o cume. Mas, não fosse Sísifo criminoso, escaparia ao castigo. Portanto, o cerne do problema corrupção parece, antes, estar no quem (os políticos) do que no quê (as instituições).

Educação, livre-arbítrio para o bem, vontade firme contribuem, em grande medida, para uma trajetória inversa a esse malfazer que assola o mundo, à exceção de alguns países altamente civilizados.

Na lista 2009 do Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional – contestado, discutível, mas único critério conhecido de aferição mundial –, apenas um país atingiu nota 9,4 numa escala de 10: Nova Zelândia. O Brasil mantém-se, anos a fio, entre desonrosos 3 a 4 pontos, competindo vergonhosamente com os vizinhos latino-americanos. Quem peca menos, na região, são Chile e Uruguai, em 2009 com nota 6,7.

Há diferenças gritantes de causa/efeito entre regiões e países, mas em geral as práticas corruptas envolvem cúpula governamental, elites partidárias e poder corporativo. Dança-se conforme a música: suborno, extorsão, favoritismo, clientelismo e patronato, influência imoderada, lavagem de dinheiro, lucros ilegalmente adquiridos (inclusive saque aos ativos do Estado), desvio de verbas.

Por aqui mesmo, América Latina – e este é ano de eleições no Chile, Colômbia, Brasil – a corrupção arraigou-se no sistema eleitoral. Ganhou, inclusive, ambientes até então imunes: a "Suíça" centro-americana Costa Rica – democracia modelo – e o Partido dos Trabalhadores brasileiro (PT) – partido modelo.

Privatização da corrupção. Assim, cientistas políticos denominam o fenômeno de crescimento dessa prática. Ou melhor, descortínio, graças à maior visibilidade proporcionada pelos meios de informação. Na memória da existência humana, política soa inerente, atávica, congênita; implica governar e ser governado. Com ela, o espectro da corrupção intrínseca, num pensamento cônscio, resignado, quase unívoco, de que política é uma atividade corrupta. Espiral em descontrole em boa parte dos países, posto que só os de sistema avançados superam, apresenta-se em faces velhas e novas.

O cientista político Michael Johnston registra quatro diferentes formas de corrupção, segundo critérios qualitativos. Mercados de influência canalizam fundos para favorecimento. Carteis, como extensão de redes das elites política, burocrática, comercial, militar e midiática, mantêm-se ao custo de "recompensas" partilhadas. Oligarcas e clãs dominam a política e economia de sociedades frágeis. Magnatas do serviço público dele fazem uso para enriquecer com impunidade.

Tem-se o fim da Guerra Fria como marco da visão atual de corrupção. Prepondera o papel dos políticos, movidos por interesses pessoais. São redes de compadrio, clientelismo, transações por baixo do pano. No entanto, grande parte do que costumava ocorrer, e era amplamente aceito, hoje já é definido como ilegal.

Gerações ou séculos vêm definindo relações aceitáveis entre riqueza e poder. A sociedade civil (nas sociedades avançadas) tornou-se força anticorrupção significativa; mobilização em defesa dos próprios interesses. Mas o resultado é ínfimo, nas sociedades altamente corrompidas, em que as moedas vigentes são o apoio político e econômico.

A partir século XIX, muitos países baniram práticas que interferem com liberdade de voto, como intimidação, coerção, favorecimento. A instituição do voto secreto ajudou.

Dentre outros argumentos, afirmam muitos que a corrupção gera desconfiança, no realinhamento ou desalinhamento dos partidos políticos, com a ruptura de velhas alianças ou coligações. Ressentem-se os partidos, em particular, e o governo, em geral.

Ainda a considerar o papel da mídia, desde os anos 1960. A revolução na tecnologia da informação tanto serve à maior transparência dos acontecimentos políticos quanto à aproximação entre governos e seu povo, na tentativa de ganhar, ou reconquistar, confiança.

Historicamente, países hoje com baixo nível de corrupção controlaram o problema não por meio de campanhas de reforma, mas no curso de uma luta com preocupações básicas como quem pode administrar, taxar e tomar decisões em nome de quem.

Qualquer semelhança com os tempos atuais, onde quer que seja, será mera coincidência.

(A autora é Jornalista)

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