Ascite, a popular barriga d'água

Robinson Botelho de Faria

Muitas vezes, é necessário retirar líquido abdominal para o paciente respirar melhor

Ascite é o acúmulo de líquido livre na cavidade abdominal. É a popular barriga d’água, em que observamos, geralmente, um paciente magro, consumido pela doença e com uma barriga enorme, toda distendida.

Os fatores mais importantes para a ocorrência de ascite são o não funcionamento adequado do fígado, o que prejudica a síntese de albumina, uma proteína muito importante para o organismo e que circula pelo sangue, e também a hipertensão venosa portal (a veia porta é a que leva para o fígado todo sangue que passou pelo sistema digestivo, transportando as matérias-primas sobre as quais o fígado atua. Essa veia pode apresentar pressão alta localizada, o que impede a chegada dos nutrientes ao fígado). Esses dois fatores rompem o equilíbrio do organismo, fazendo com que saia menos líquido da cavidade abdominal do que entra.

A albumina é a proteína que faz com que o sangue mantenha suas características normais, pois ‘chupa’ o líquido livre para a circulação (pressão osmótica). Sem albumina, o líquido livre extravasa para os tecidos, e a circulação sangüínea, com menos volume, faz com que os rins retenham cada vez mais água, acarretando um círculo vicioso.

Na maioria das vezes o fígado não está funcionando pela presença de cirrose (que pode ter sido provocada por álcool, medicamentos tóxicos, hepatite, cálculos que obstruem os canalículos hepáticos e até insuficiência cardíaca grave, quando não ocorre circulação sangüínea adequada no fígado, matando suas células). Pode ter outras causas, como tumores ou esquistossomose. A hipertensão da veia porta pode dar-se por trombos, obstruindo-a, ou tumores abdominais, comprimindo-a.

A ascite pode aparecer de forma súbita ou lenta. Normalmente são necessários 500 ml para sua detecção clínica sem ajuda de exames (que verificam níveis menores de líquidos). O paciente encontra-se magro, porém com o abdômen muito distendido, desidratado (porque o líquido está mal distribuído em seu organismo). Veias colaterais começam a ficar aparentes em sua superfície abdominal, o umbigo fica evertido propiciando hérnias (pode também desencadear hérnias inguinais pelo excesso de pressão abdominal). Ocorre disfunção respiratória progressiva, porque a pressão do líquido acaba impedindo a movimentação do diafragma, dificultando a respiração, e por vezes esse líquido passa através de poros para o espaço pulmonar, acarretando derrame pleural, comprimindo o pulmão.

O diagnostico é feito através da história clínica, exame físico, exames de sangue, ultra-som, tomografia etc. É necessário realizar paracentese (que é uma punção por agulha, para retirada de líquido abdominal para exame). Muitas vezes esse procedimento precisa ser realizado para diminuir a quantidade de líquido para o paciente poder respirar melhor.

O tratamento é feito inicialmente com internação hospitalar, uso de diuréticos e dieta rigorosa sem sal. A evolução depende também da possibilidade da correção da doença que gerou a ascite. Pode ser necessária reposição de albumina em casos mais graves. Entre suas possíveis complicações, destacam-se a insuficiência renal e a contaminação do líquido ascítico, levando a infecções graves.

 (O autor é cirurgião Torácico do Hospital Souza Aguiar)

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