BLM é reaberta mais objetiva

Mais uma homenagem a Luiz de Mattos, no ano do sesquicentenário de seu nascimento, mais um benefício para os frequentadores, para os militantes da Casa-Chefe do Racionalismo Cristão e para os moradores de Vila Isabel (Rio de Janeiro) e bairros próximos: a reabertura da Biblioteca Luiz de Mattos (ou, simplesmente, BLM), agora com o novo projeto de tornar-se fonte de informação e consulta principalmente sobre assuntos filosóficos e espiritualistas.

A Biblioteca Luiz de Mattos, que funciona na Casa-Chefe, foi redesenhada dentro do programa de obras e atividades voltadas para o Centenário do Racionalismo Cristão, que transcorre neste ano. A solenidade de reinauguração, aberta com a apresentação do Coral do Racionalismo Cristão, foi dividida em dois tempos: a entrega da biblioteca ao público e o pré-lançamento do livro Luiz de Mattos, sua vida, sua obra, de Galdino Rodrigues de Andrade. 

ESPAÇO SOCIAL. Entre as mudanças físicas da biblioteca, a que mais realça é a criação de um espaço "social", como o qualificou o presidente em exercício da Doutrina, Gilberto Silva, ao falar da reestruturação.

Segundo Gilberto Silva, observava-se com frequência que maridos não militantes de esposas militantes ou esposas militantes de maridos não militantes ficavam deslocados em dias de reuniões de desdobramento (de que somente militantes podem participar). Muitas vezes permaneciam até em seus automóveis, aguardando o encerramento das reuniões. Daí nasceu a ideia de criar um espaço onde esses não militantes pudessem aguardar mais à vontade o encerramento das reuniões. Foi criada, então, uma sala com opções de leitura e Internet, com ar refrigerado, água gelada e "a promessa de cafezinho", como, em tom de brincadeira, afirmou o presidente.

Não foram, porém, as mudanças físicas e melhor aproveitamento e embelezamento dos espaços, com materiais modernos que proporcionam visual deslumbrante, num projeto do arquiteto Jorge Nesher, as maiores modificações. O que verdadeiramente 'sacudiu' a Biblioteca Luiz de Mattos foi o redirecionamento de seu propósito. O acervo de assuntos gerais passa quase exclusivamente a temas filosóficos e religiosos.

O novo rumo dos objetivos da Biblioteca Luiz de Mattos começou a ser traçado há bastante tempo. Conforme explicaram Jefferson Cunha e Lazaro Moreira Cezar, respectivamente diretor-bibliotecário da Casa-Chefe e coordenador da Diretoria de Ação Doutrinária, a ideia era antiga: de que trata o Racionalismo Cristão? Pois que a biblioteca se volte para essa área. Gilberto Silva também assinalou, ao apresentar ao público as mudanças, que as bibliotecas vêm especializando-se, deixando de abrigar livros de todos os temas e áreas do conhecimento humano.

Em unanimidade, foi enaltecida a figura de Moysés Martins Ribeiro, cuja viúva, sra. Marilza G. Florêncio estava presente à solenidade de reinauguração. Isoladamente, Gilberto Silva, Lazaro, Jefferson e Luciana Costa, bibliotecária, citaram Moysés como o maior incentivador da transformação da Biblioteca Luiz de Mattos em depositário de obras unicamente filosóficas e religiosas. Lazaro lembrou que, quando diretor-bibliotecário, Moysés tanto se dedicou ao cargo, que fez a Faculdade de Biblioteconomia, para melhor servir ao Racionalismo Cristão e ao público.

A ideia era boa, mas o descarte das obras de assuntos gerais, genéricos, romances, poesias não foi fácil. O acervo de mais de 18 mil livros foi reduzido a 5,5mil. Luciana explicou que muitos livros didáticos estavam ultrapassados; enciclopédias, livros de Medicina e de Direito foram cedidos a instituições específicas; romances, literatura brasileira em geral foram para presídios e escolas da Prefeitura do Rio de Janeiro e pequenas bibliotecas. 

DOAÇÕES. Jefferson explicou que, à medida que o acervo era enxugado, a Biblioteca Luiz de Mattos recebia doações de obras espiritualistas, religiosas, da maçonaria, do budismo, do espiritismo. A Federação Espírita do Brasil, por exemplo, doou 96 títulos.

Ainda assim, explicou Lazaro, o acervo não foi totalmente renovado, porque o vínculo com o passado foi mantido por meio das obras raras. "Há livro de 1798, livros do século XIX", disse.

Foram preservados, também, os livros que Luiz de Mattos leu e nos quais fez anotações, os que racionalistas cristãos leram e eventualmente fizeram anotação ou assinaram e os que foram doados à biblioteca por seus autores, autografados, como volumes do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Lazaro foi um dos maiores responsáveis pelo trabalho de garimpagem dos títulos que deveriam permanecer no acervo, auxiliado nessa tarefa por Jefferson, Luciana e Arthur Silva, que também trabalha na biblioteca. Agora deverá integrar a comissão que vai analisar os livros de Filosofia e de religião que serão adquiridos. Segundo Luciana, todas as religiões serão contempladas na Biblioteca Luiz de Mattos, porque o Racionalismo Cristão não faz restrição a qualquer delas. O local se transformará numa referência sobre obras de Filosofia e de religião, porque nas redondezas não há nada do gênero. Muito próximo está a biblioteca da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), mas não é especializada.

Segundo Lazaro, a Biblioteca Luiz de Mattos passa a abrigar livros que possam levar ao entendimento do Universo, mesmo que não seja pelo caminho do espiritualismo.

Ao entregar a nova Biblioteca Luiz de Mattos, Gilberto Silva também justificou a seleção do acervo, lembrando que o local perdeu frequentadores, principalmente em função da internet, onde se torna mais fácil e rápido fazer consultas e pesquisas.

A inauguração foi um ato simples: o descerramento de dois quadros – trabalho do artista plástico Sérgio Lima, que é também membro da Diretoria de Ação Doutrinária do Racionalismo Cristão –, sem discursos, apenas rápidas palavras de Jefferson, Lazaro e de d. Marluce de Oliveira Rodrigues, conselheira da Casa-Chefe, precedidas da projeção de fotos restauradas pelo designer gráfico Norman Passos, autor do belo mosaico afixado em frente ao patamar da escada que dá acesso à biblioteca, montado sobre foto de Luiz de Mattos. Um dos painéis foi descerrado por d. Marluce: o outro, por d. Iraci Ferreira Silva.

Foi criado pela designer gráfico Tássia Valim um logotipo para identificar a nova Biblioteca Luiz de Mattos. Tássia, sobrinha de Jefferson Cunha, presente à inauguração, recebeu carinhosa salva de palmas. 

CURIOSIDADE. A intervenção de  Marluce foi emocionante e muito aplaudida. Esposa do presidente internacional do Racionalismo Cristão, Humberto Machado Rodrigues, representou-o na solenidade.

Marluce, personagem de íntima ligação com a Biblioteca Luiz de Mattos, contou fato curioso e inédito. Ela disse que, em 1956, quando foi inaugurado o novo prédio da Casa-Chefe, os livros foram transportados da "velha" Casa-Chefe, hoje Solar Luiz de Mattos, e deixados desordenadamente no local onde deveriam ficar. Antonio Cottas, à época presidente do Racionalismo Cristão, determinou-lhe que "arrumasse" os livros. Ela chamou a amiga Zuleika Leal Failace para ajudá-la e as duas viram que a tarefa era inviável. Antes de dizerem isso a Antonio Cottas, falaram com a esposa dele, Maria Cottas: "É impossível fazer o que o seu Cottas mandou, veja como estão os livros, veja que bagunça fizeram. Como nós vamos conseguir arrumar isso? Ainda segundo Marluce, Maria Cottas exclamou: "Antonio está maluco. Vocês não podem arrumar isto". E foi conversar com o marido. Foi contratada uma pessoa especializada e a biblioteca, organizada.

Concluída a primeira fase da inauguração, foi prestada nova homenagem ao codificador do Racionalismo Cristão e patrono da biblioteca: o pré-lançamento de Luiz de Mattos, sua vida, sua obra. O autor, Galdino Rodrigues de Andrade, mineiro de Coimbra, à época, distrito de Viçosa, e militante da Filial Santa Efigênia, é um estudioso do Racionalismo Cristão desde 1946. Em poucas palavras agradeceu a todos que colaboraram com o seu trabalho e convidou o radialista Roberto Cid para ler um trecho do novo livro e, por sugestão de Gilberto Silva, foi lido o capítulo 17. Esse capítulo versa sobre a amizade e destaca a amizade de Luiz de Mattos com o escritor naturalista Julio Ribeiro, autor do romance A carne. Essa leitura voltará a ser feita pelo radialista na Rádio A Razão, para todo o mundo através da Internet. A maioria dos presentes adquiriu o livro e recebeu dedicatória do autor, enquanto lhes era servido um coquetel.

Página principal | Arquivo