Carta de mulher

"Meu querido pai,

Custa-me crer que o senhor, que me ensinou a verdade, me aconselhe, agora, a esquecer e desculpar!... Inteligente que é, devia compreender a minha atroz decepção, minha dor e vergonha ao certificar-me de que aquele que eu idolatrava se tornara um embusteiro como os demais. Oh! Não se morre de desgosto porque, se isso acontecesse, eu não resistiria a tão rude golpe!

Diz-me em sua carta: "Sei que sou o responsável pela tua infelicidade; tua mãe me advertia sempre, e com razão... Afastei-me da realidade da vida, eduquei-te em uma atmosfera de artifícios... nem à escola te deixei ir, com receio que algum hábito grosseiro empanasse o brilho de tua alma inocente e pura. Tratei-te como uma flor preciosa e delicada que se abriria, mais tarde, só para receber as carícias da luz, e a vida, sem misericórdia, vingou-se de mim".

Não, paizinho querido, a vida não podia vingar-se de quem foi bom pai e, com o seu demasiado amor e inolvidável carinho, supunha que faria sua filha eternamente feliz. Esqueceu-se, porém, de que eu iria enfrentar um mundo perverso e enganador, onde as tentações pululam vencendo a fraqueza dos homens. Resisti o quanto pude, até que cansei!...

Ontem, passando pelo jardim, com os meus filhinhos, vi uns garotos que, empunhando uns ramos, perseguiam uma borboleta que voava de flor em flor, descuidada e feliz. Procuravam alcançá-la, porém ela, ligeira, escapava sempre... até que por fim, cansada, caiu sob os golpes de seus perseguidores e estes afastaram-se, rindo, indiferentes à sua agonia.

Foi o que Sérgio fez com as minhas ilusões, minha alegria de viver, meu grande amor. Quer ainda, meu pai, que o desculpe?"

Diz-me que não é mau homem, e que se eu visse o seu desespero, o arrependimento de que se acha possuído, desculparia a sua fraqueza momentânea que o fez envelhecer nesses seis meses de separação... que o vai ver muitas vezes, que me quer bem e só agora dá valor à esposa que possuía.

Veio tarde a valorização. Não, não é possível que esteja sendo sincero; seu arrependimento é falso e o meu desespero é maior que o dele, porque me vejo só com os dois filhinhos que ele esqueceu quando me traiu, que perguntam pelo pai sem que eu lhes possa dizer a verdade. Não o devia ter recebido, meu pai, nem para certificar-se, como diz, se a nossa separação era mesmo irremediável... Esquecer? Não posso. Peça-me tudo, meu pai querido, menos isso. A ferida da primeira dor, da primeira desilusão, dificilmente cicatriza... Nunca mais o amarei com aquela confiança, aquele carinho que lhe dediquei. Enfrentarei a minha difícil situação, serena e forte, como mulher e como mãe. Só agora compreendo que a vida, tal qual me proporcionava meu pai, só se vive na casa paterna. Preocupam-me somente os meus filhinhos que, mui pequeninos, hoje nada compreendem, mas amanhã sofrerão as conseqüências do abandono paterno...

A sociedade?... Que me importa a mim o seu julgamento! Não foi ela que o ensinou a ser hipócrita? Não foi no seu ambiente de luxo e dissolução que ele me traiu? Não lhe devo satisfação alguma! Só a mim censurarão porque sou mulher, só eu cairei no ridículo e no olvido como abandonada. Não importa! Ele continuará a ser bem visto, pois aos homens tudo é desculpável, e ser conquistador, hoje em dia, é uma arte apreciada por essa sociedade que meu pai tanto teme. Não, não receio comentários porque sou honesta, embora traída, e não faço como muitas que pagam com a mesma moeda a traição dos esposos.

Saberei suportar a solidão. Basta-me a companhia desses dois entes queridos, recordação dum mal correspondido amor, para consolar-me.

Receia que ele possa querer ter os meus filhos a seu lado?... Isso nunca! Não tem direito sobre eles, perdeu-os!

Como me entristece o final de sua carta, meu pai: "Nem o mais severo juiz poderá tirar-lhe o direito de pai, porque o que para ti, minha filha, é um crime horrendo, monstruoso mesmo, que arruinou a tua vida, é para a lei um transe comum. E teus filhos, que tanto adoras, crescerão assim precocemente magoados, estranhos ao pai. Pensa bem, minha filha, reflete, vence a tua dor, egoísmo, humilhação, orgulho ferido, e responde ao que te pede o culpado com a mesma indulgência, compreensão e ternura que tens para os teus filhos."

Como são cruéis essas suas linhas, meu pai! Que desespero!... Como posso tornar a aceitar um homem que me traiu desumanamente! Os filhos... Só os filhos seriam capazes de me impor essa imolação!

Mas não, ele não nos tirará! A lei não lhe negará o título de pai, mas fará justiça a uma mãe que adora os seus filhinhos e que para defendê-los dará a própria vida.

Só agora compreendo o seu receio, e é por isso que me aconselha a reconciliação... Pois bem, se assim é, o que não fará uma mãe pelos filhos? Eu me imolarei!... Com a conversão do pai, jamais contarei!... Morreu o nosso amor, mas entre nós estão estes dois pedacinhos de mim mesma e, para não os perder, sacrificarei a paz de meu espírito, e na felicidade deles encontrarei consolação para a minha desventura.

Com os beijos de seus netinhos, receba todo o afeto e carinho da sua pobre

Nancy."

Maria Cottas


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