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Cidade dos sonhos Clecy Ribeiro Ajudaria o urbanismo a conter a devastação ambiental? As cidades projetam-se no futuro Talvez o Rio de Janeiro venha a ser, a curto prazo no universo planetário, onde os anos se contam aos bilhões, o grande beneficiário de toda essa azáfama em torno de revolução urbana, modernização. Agraciado como cidade-sede da Olimpíada 2016 e uma das sedes da Copa 2014, abre seu espaço urbano às transformações que se oferecem, mais e mais, a cada dia. Convergência econômica, social, tecnológica. Participação e acesso a ferramentas gerando produtos de custo menor, reutilizáveis. Almejada tentativa de manter o fiel da balança no justo nível, e sensibilizar políticos, empresários e cidadãos para enfrentar os desafios. O sonho foi descortinado por André Urani (diretor executivo, Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade, Rio de Janeiro), em dezembro 2008, São Paulo, quando do último encontro da Era Urbana (Urban Age, programa sobre o futuro das grandes cidades, da London School of Economics and Political Science e Sociedade Alfred Herrhausen, foro internacional do Deutsche Bank). Um sonho tão ambicioso quanto ousado: Rio e São Paulo abraçados em destino único, megalópole do futuro, capital mundial da energia e sustentabilidade, retrato de uma identidade brasileira, fruto de mobilização em quaisquer níveis. Não lhe faltaria potencial, mas governança e vontade de se reconhecer como tal, registra Urani. Figura o Rio em 47º lugar na lista das 60 cidades consideradas globais, em estudo apresentado pelo Conselho de Chicago sobre Questões Globais. Distancia-se algo de São Paulo, a 31ª do total e a 16ª melhor para negócios. Os critérios de aferição passam precisamente pelo volume de negócios, capital humano, intercâmbio de informação, experiência cultural e compromisso político. Soma-se, portanto, a milhares de análises, relatórios, pesquisas sobre cidades e seus vínculos com mudança climática e desenvolvimento sustentável. Perde-se de vista o volume de publicações, livros, documentos, fóruns. Um debate que se aquece à aproximação da conferência sobre clima em Copenhague, enquanto avançam (ou não) as negociações para renovar o Protocolo de Kyoto. Debate que já admite papel chave das cidades, contribuindo para soluções, pois responderiam por 67% a 80% das emissões de gases do efeito estufa. Debate que já admite poderes do "sistema cidade", a cidade com poder decisório (a lembrar Porto Alegre e sua "administração popular"). E, por extensão, com funções importantes de comando da economia global, questão foco de novas controvérsias a caminho de Copenhague. Bem, voltando à escala universal, cinco, sete anos, daqui até a Copa e a Olimpíada, representam uma nanopartícula, no caso do Rio de Janeiro, em que se apresenta oportunidade ímpar. Mas a tarefa é de persistência, esposada mundo afora: transformar cidades em habitat sustentável – política, econômica e ecologicamente falando. E, a partir daí, deixar expandir-se modelo cultural igualmente sustentável, compatível com democracia. Nesse sentido, progride a Iniciativa Global Clinton (Clinton Global Initiative), em seu quinto encontro setembro passado. Já gerou "filhotes", como a Iniciativa Climática, de 2007. Como resultado concreto, uns 250 projetos em curso, envolvendo empresários, governo e sociedade, e agora também a Universidade. Na área de cidades – e, nesta, bancos são os grandes financiadores –, imóveis residenciais obsoletos de Nova York preparam-se para sofrer restauração, readaptando-se à realidade ditada pelo consumo de energia. Depois, o Empire State. Renovar, eis a palavra de ordem. De fato, diz David Satterthwaite (colaborador do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), não é o crescimento demográfico, urbano ou rural, que provoca aumento nas emissões de gás carbono. Estas ganham terreno graças ao aumento de consumidores e seus níveis de consumo, pois são emissões induzidas por atividades humanas específicas. Constatação um tanto perversa, de alguns autores que associam a degradação ambiental à desigualdade social: os que detêm a mola política e financeira são os promotores de um modelo de consumo devastador, dilapidador, servindo de exemplo a toda a sociedade. Calcula-se que 20% a 30% da população mundial consomem 70% a 80% dos recursos pilhados da biosfera, a cada ano. Assim, urge consumir menos para distribuir melhor, mesmo porque o ambiente se degrada, sem provocar bem-estar coletivo. Tempo é dinheiro. Hoje, a solução custa menos; amanhã, custará mais. Nas cidades, os problemas se vêm superpondo, melancólicos e cansados, e a literatura de queixumes e lamúrias soa em cantilena. Em teste, a vontade política e social. Reimaginar, reinventar, renovar, readaptar, remoldar. Basta prosseguir. Afinal, Roma não se fez num dia. (A autora é jornalista) |
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