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Cínicos, céticos, estóicos e epicuristas
Roberto Farias de Oliveira Entre os grandes mestres, racionalistas cristãos de São Paulo Cínicos, céticos, estóicos e epicuristas Como relatei em crônica anterior, vim morar em São Paulo em 1960. A 3 de janeiro, ainda estávamos no Rio e pudemos assistir à comemoração do centenário de nascimento de Luiz de Mattos, com falas memoráveis, inclusive de D. Maria Cottas, bastante emocionada. No dia 5, aqui chegamos e ficamos três anos no bairro da Lapa, onde concluí o chamado curso ginasial no Colégio Estadual Anhangüera. Não seria possível ali prosseguir; prestei exame de seleção e fui fazer o curso clássico no Colégio de Aplicação, ligado à Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, próximo à Praça Marechal Deodoro, em Santa Cecília. Era a época da escola pública de alto nível, como já dissemos, e as opções eram: científico, clássico e normal – este o único profissionalizante, formava professoras, embora já existissem as escolas técnicas. Meus colegas do Anhangüera, turma somente masculina, tornaram-se, na maioria, médicos. Do Aplicação, turma mista, na maioria advogados(as). Em 1961, a legislação do ensino sofreu uma mudança, deixando-nos ainda mais dedicados às ciências humanas, liberando-nos de Matemática, Química, Física e Biologia. No último ano do Colegial, no entanto, fomos para Porto Alegre, e concluí no Colégio Júlio de Castilhos, o Julinho, considerado padrão do Estado. Muitos colegas vinham do interior, um deles de uma cidadezinha onde só se falava alemão. Hoje são juízes, jornalistas. No Aplicação, os professores trabalhavam em conjunto, com projeto interdisciplinar que ainda era novidade, quase todos jovens. Em Filosofia, tivemos uma visão histórica, sob o ponto de vista da Teoria do Conhecimento, que me marcou e que memorizo até hoje. FORMAÇÃO. Não estou me vangloriando dessas escolas, quero apenas relatar uma formação. Aproximamo-nos das diferentes fases da cultura e das artes. De volta de Porto Alegre, prestei o vestibular (com provas escritas e orais) para Letras – USP. O ano? 1964: começava o período dos embates dos estudantes. Mas a faculdade decepcionou-me bastante, com honrosas exceções, é claro. Era o antigo prédio da Rua Maria Antonia, em frente ao Mackenzie, e ocorreram conflitos. Em 1968, concluí o bacharelado, já na Cidade Universitária, bem distante, pois estávamos morando em Santa Cecília. Em 1965, paralelamente, freqüentei a Escola de Arte Dramática (EAD), à noite, em busca de um ambiente de espírito verdadeiramente universitário. E como andava a pé para todo lado! Indo ao teatro, conhecendo pessoas, tentando compreender ao máximo o que se fazia no mundo da comunicação. Na EAD, não segui o curso de ator, mas o de Dramaturgia e Crítica, com sábios como Anatol Rosenfeld e Alfredo Mesquita, o mantenedor, às próprias expensas, de tudo, tendo conseguido a cessão do antigo prédio da Pinacoteca do Estado para as aulas, junto ao Jardim da Luz, em frente à famosa estação ferroviária. Tudo funcionava com recursos mínimos, fraca iluminação, com aparência interna de castelo medieval, acentuada pelos exercícios de colocação de voz e pelos treinos de esgrima dos alunos de interpretação. Antes do final daquela década, houve a incorporação pela USP, passando a integrar a Escola de Comunicações e Artes. Com muitas pessoas famosas da cultura e das artes no Brasil travei contato naquele momento, tanto em Letras como em Dramaturgia, mas houve umas aulas, em particular, que nunca esqueço, e faço questão de mencionar. Não sem antes destacar os mestres da Casa Racionalista Cristã da Rua Francisca Júlia, que sempre freqüentávamos, alguns ainda entre nós, outros já no Astral Superior, como: Amélia Coelho, Helena Botelho, Jaime Rodrigues, Sinforiano Varejão, Malvina e Albano Teixeira, Wilson Carnevalli, José Rodrigues Jr., Guiomar e Humberto Romanelli, meus pais: o major Manoel Carvalho de Oliveira e Elba Farias de Oliveira, e outros, tantos outros. Tornei-me então militante, de modestos predicados, é certo, a partir de 1970. Pois bem, ao estudar o universo das artes e do pensamento, vamos reparando que transparecem, aqui e ali, vislumbres dos conhecimentos da vida espiritual, quando os seres humanos aceitam pôr em prática as intuições vindas dos mundos superiores, como o idealismo de Platão até Hegel, por exemplo. Na escola de Alfredo Mesquita, um benemérito da cultura de São Paulo, tivemos aulas, por volta de 1966, com uma figura, no mínimo curiosa: o professor Vilém Flusser, e ele mesmo escolhera esta grafia para seu nome no Brasil, já que viera da cidade de Praga. Segundo contou, fugira a pé do nazismo, trazendo apenas um exemplar do “Fausto”, de Goethe. Tinha pelo menos um livro publicado em português e o aspecto entre estranho e engraçado, acentuado pela pronúncia tcheca, os bigodes e o cavanhaque grisalhos. A partir de certo momento, disse-nos que iria viver na França, e daí nunca mais tivemos notícias dele. Com ares sinistros, nos dizia assim: "Vocês nunca leram as "Confissões", de Santo Agostinho? Pois é parte fundamental do pensamento ocidental, da cultura judaico-cristã, a "imitatio Christi" (imitação de Cristo – lema fundamental de muitos religiosos da Idade Média)!... Depois: "Vamos analisar uma sentença de Nietzche: "Arte melhor que verdade". E citava o texto em alemão. O mais interessante de tudo foi quando comparou a época em que vivíamos (e o mundo não mudou tanto assim em 40 anos) com a do início do Cristianismo. Os últimos séculos do Império Romano coincidiram com as escolas consideradas "menores" da filosofia grega, antes que o cristianismo surgisse para que todos nele se engajassem. Hoje vivemos um caos cultural, político e religioso, sem dúvida, semelhante ao da decadência dos grandes domínios de Roma. E todos anseiam por uma orientação segura, pela verdade, que as religiões não conseguem desvencilhar do misticismo e dos mistérios fantasiosos. Cremos que, aos poucos, todos irão descobrindo a resposta tão procurada, de forma semelhante aos povos do tempo dos romanos, envolvendo também, embora lentamente, as tribos bárbaras invasoras. Hoje, o Racionalismo Cristão afirma-se como uma luz nas trevas, como o grande engajamento ao qual as pessoas aspiram. E o professor Flusser apenas intuía a verdade de nossa época, comparável por vários motivos à da transição do Mundo Antigo para o da Idade Média que, ao longo de dez séculos, forjou os conceitos de justiça, de bem comum, de respeito pelo semelhante, de amor ao próximo, que constituem os ideais mais elevados das sociedades atuais, com base exatamente na imitação de Cristo. CORRENTES. Pois bem, dizia o professor que, antes de os povos se deixarem profundamente imbuir dos valores do cristianismo, quatro correntes de pensamento representavam bem o que havia: os cínicos, que eram como o grego Diógenes, morador de um tonel, desprezando qualquer poder ou glória, (como hippies, dizia o professor, querendo levar vida de cachorro – cynos, em grego), pondo em dúvida ou ridicularizando qualquer conceito tido como certo; os céticos, descrentes ao máximo, como os representantes da ciência materialista, apáticos, tentando parecer indiferentes aos males ao redor; os estóicos, severos, mostrando orgulhosa resistência à dor, procurando saída nas seitas orientais ou em religiões autoflagelantes, no desprezo ao conforto físico, como o imperador filósofo Marco Aurélio; e os epicuristas, discípulos do grego Epicuro, que foi viver em Roma, partidários do prazer refinado, mas hoje são os que se envolvem no mundo das drogas, ou no luxo e conforto, riquezas materiais a qualquer preço. Consideramos esta visão extremamente pertinente, sabendo como o Racionalismo Cristão é um retorno aos princípios originais de Cristo, que vêm sendo enfraquecidos e desvirtuados, a ponto de a humanidade ter-se deixado ficar confusa, descrente, egoísta e imediatista. O mundo de hoje parece mesmo estar seguindo essas quatro correntes de pensamento aqui apenas esboçadas, merecendo um estudo melhor, mais aprofundado, em próximos comentários. (O autor é militante da Filial São Paulo, SP) |
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