Clima em contagem regressiva

Clecy Ribeiro

2010, denominado Ano Internacional da Biodiversidade, nem de propósito teve no Brasil evento inicial, em 11 de janeiro, Curitiba, embora não o marco oficial de lançamento, ocorrido em Berlim. Desde a Eco-92, o país promove iniciativas de proteção da diversidade biológica, não abrigasse ele a maior área de ecossistemas e grandes florestas do planeta Terra: a Amazônia. Contudo, está em quarto lugar entre os maiores emissores de gases do efeito estufa, mercê do modelo de uso do solo, das vulneráveis florestas tropicais e, ainda, do sensível setor energético. A região amazônica estende-se a mais cinco países e desempenha papel capital e único na mudança climática, pois todos adotam o mesmo modelo extrativista voltado à exportação.

No Brasil, as florestas ocupam 56% do território nacional ou 4,8 milhões de quilômetros quadrados, e sua grande biodiversidade deve-se à exuberância de formações vegetais. São seis biomas, conjuntos de vida vegetal e animal com condições geoclimáticas similares: Amazônia, Cerrado (ora sofrendo especulação imobiliária), Mata Atlântica (praticamente devastada), Caatinga, Pampa e Pantanal. Florestas plantadas representam apenas 1%, ou 53 mil quilômetros quadrados, contudo importantes na economia de exportação. Quanto à diversidade, estudos recentes referem-se a 7.880 espécies florestais arbóreas nativas, que somariam 80% do total. Mas, apesar do desmatamento – com perda anual de 28,4 mil quilômetros quadrados entre 1990 e 2005 –  e do uso intenso de muitas espécies, apenas 4% estariam ameaçadas de extinção.

Ora, florestas e mudanças climáticas apresentam relacionamento peculiar. As primeiras atuam no ciclo de carbono. Seus efeitos retrocedem a passado longínquo, tendo em vista que demoram a aparecer. São consideradas os nós nas negociações globais atuais (Virgilio M. Viana, Fundação Amazonas Sustentável), já que o desmatamento gera lucro, mas contraria uso sustentável. Embora as emissões de carbono fiquem em torno de 20% e parte seja reciclada pela biosfera e pelos oceanos, o aumento rápido das populações e suas atividades ultrapassa a capacidade de reabsorção. Daí o alerta que o mundo já vivencia, lembra Viana, traduzido, por exemplo, pelas enchentes em Santa Catarina e Amazonas, tufões na Ásia, secas na África, recordes de temperatura na Europa, furacões nos Estados Unidos, degelo nas montanhas e pólos. Inundações no Brasil constituem, já, problema grave em certas regiões, passível de agravamento. E o terremoto no Haiti?

Assim, pregam os especialistas: redirecionar o planeta Terra para uma economia de baixo carbono. O xis do problema está no como, posto que poucos países propõem-se alterar projetos de desenvolvimento. O próprio Brasil, ao voltar-se aos agronegócios de exportação (soja, celulose, carne, etanol da cana de açúcar), acelerou o ritmo do desflorestamento e ajudou a exploração ilegal de milhares de hectares de terras, além da biopirataria. Crescimento ao preço da ecologia.   

Estima o especialista J. Marengo que, ao ritmo atual, a floresta amazônica poderia passar de 5,3 milhões de quilômetros quadrados (85% da superfície inicial) a 3,2 milhões de quilômetros quadrados em 2050 (53%). Com a mudança climática, o tempo poderia tornar-se mais seco e converter a floresta residual em savana. A floresta constitui um vasto poço de carbono, retirando, segundo estimativas, de 250 milhões a

1,5 bilhão de toneladas de carbono da atmosfera terrestre, a cada ano. Já é pouco, face aos 50 bilhões de toneladas das equivalentes emissões de carbono anuais, oriundas das atividades humanas. Não mais pulmão do planeta. As consequências atingem muito além do Brasil: o planeta.

Daí as pressões, de resto antigas, já desde o Império de Dom Pedro II, para a internacionalização da Amazônia. Por vezes, trazem ideias tão esdrúxulas como venda de riquezas e territórios para pagar dívida, intervenções militares, gestão coletiva, privatização. Atividades de inteligência ambiental marcam presença da CIA. Militares dos países envolvidos defendem fronteiras e apoiam projetos regionais. Bem aquém dos limites do poder econômico, inclusive ocupação ilegal.

Seminário recente sobre mudanças climáticas (Fundação Alexandre de Gusmão, novembro 2009, Rio de Janeiro) historia a questão, expõe planos e políticas brasileiras, bem como propostas de solução para a Amazônia brasileira, escopo a que nos restringimos, nestas poucas linhas. Está em preparativos a Rio+20, lembra a professora Suzana Khan Ribeiro, que introduz o carbono como possível ator de um novo modelo de desenvolvimento. Uma economia de baixo carbono, que tanto defendem Virgilio M. Viana e sua Fundação Amazonas Sustentável (www.fas-amazonas.org). Afinal, a floresta vale mais em pé.

Nos corredores e porões de poder da ONU, os países empenham-se no chamado jogo de pôquer da mudança climática. Este ano de alerta terá seu ápice em outubro, quando da Cúpula da Biodiversidade em Nagoya, Japão, para adoção de um novo plano estratégico, válido para o período 2011-2020. Nele, talvez uma visão de longo prazo para lidar com a biodiversidade. Até lá, muita mobilização entre governos, comunidade empresarial, sociedade civil; muita informação e alguma ação. O tempo urge; a contagem regressiva começa (www.countdown2010.net/year-biodiversity). Joga-se, nesse pôquer, muito da vida no planeta Terra.

(A autora é jornalista)

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