Colheitas

Heloísa Ferreira da Costa

A natureza ensina que o bom preparo da terra para o plantio, a escolha de uma semente ideal, dentro daquilo que se quer produzir, o cuidado durante as fases de crescimento, terão como resultado uma colheita farta e satisfatória. É claro que podem ocorrer problemas, surpresas climáticas, alterações de mercado, mas com trabalho e disposição pode-se chegar com sucesso ao final. E se vier um fracasso, renovar energias para começar de novo, já se sabe o caminho.

Se for feito um paralelo com a vida, pode-se entender por que existe tanta infelicidade e sofrimento; as pessoas sem o conhecimento das leis espirituais seguem sem rumo, plantando más atitudes e querendo colher alegria e felicidade. Uma vida adequada não significa somente educar os filhos e pagar as contas, mas, sim, procurar ter disciplina, não se escondendo em vícios para esquecer os infortúnios. O dia seguinte sempre trará a questão à tona outra vez, e esta terá que ser resolvida.

Observamos ao nosso redor pessoas que tiveram a oportunidade de mudar a vida, começar de novo; muitos conheceram os princípios Racionalistas Cristãos, mas os dogmas religiosos estão de tal forma encravados no íntimo que ficam ainda à espera de salvações, perdões e graças; em obediência a rezas e promessas, o indivíduo altera determinados hábitos como forma de auto-penitência, esperando, assim, obter a atenção aos seus apelos por uma entidade fictícia, sejam eles de saúde ou dinheiro, mas o livre-arbítrio nunca é considerado.

Se houvesse um pouco de estudo, o esclarecimento suplantaria a ignorância e, ao invés dessas barganhas inúteis, o indivíduo adotaria uma vida disciplinada, não se deixaria envolver apenas pela matéria. Sabemos ser importante a manutenção dos bens adquiridos com trabalho árduo, mas o envolvimento puramente material, sem o apoio espiritual, faz do ser humano um escravo de coisas que não poderá carregar na sua transição para o mundo extramaterial.

A meia idade, cronologicamente a época da maturidade, deve trazer uma consciência de se analisar os fatos do passado e os objetivos e metas futuras. Nessa fase é preciso olhar ao redor e observar os que já alcança ram o último estágio da vida. Não a título de julgamento; esta análise deve servir de parâmetro para nossa própria vida. Todos, de uma forma ou de outra, estão colhendo frutos de plantações feitas no passado, seja ele remoto ou recente, e são poucos os que foram vítimas de acidentes da natureza; a grande maioria é apenas e tão somente vítima do mau uso de sua própria liberdade.

O triste é a verificação de que muitos que supervalorizaram a matéria carregavam no seu interior sensibilidade, inteligência, muitos até iniciavam leituras favoráveis, mas as interrompiam pela metade, perdendo o interesse, devido ao intenso envolvimento com paixões e poder; agora, no limiar do encerramento da encarnação, percebem quanto desperdício, quanta coisa se deixou de fazer, como poderia haver mais qualidade de vida. Mas o que o espiritualista chama de qualidade de vida o materialista chama de tédio, perda de tempo.

A atenção ávida é que traz um fechamento adequado, é preciso escolher como se quer alcançar o fim, preocupados com coisas sem importância, ou trabalhando pelo progresso do espírito? Deve haver tempo para tudo, para trabalhar, para descansar, para poupar e para gastar, mas não se deve deixar que o tempo passe em vão, porque, mesmo para aqueles que alcançaram a prosperidade, quando não há o embasamento espiritual, esses bens não serão suficientes para preencher o vazio interior, e não haverá mais alegria em desfrutar deles, porque a saúde estará débil, corroída pelos maus hábitos.

O tempo na realidade não existe, e a escolha das sementes pode ser feita sempre que o indivíduo quiser, mas para novas opções é preciso conhecimento, ampliar os horizontes da matéria. É importante lembrar que a semeadura é opcional, mas a colheita será obrigatória.

Há uma antiga estória infantil que muito bem explica esta lei natural, a fábula da cigarra e da formiga: ambas têm a oportunidade de preparar-se para os dias frios, mas enquanto uma trabalha a outra lança-se a uma vida de prazeres. No final, uma cigarra triste, cansada e faminta bate à porta da formiga, pedindo ajuda, e só resta a frase para reflexão: "O que foi feito no verão? Então, agora, dance!" E isto nada tem a ver com maldade, são apenas leis naturais e imutáveis em ação, e a natureza não se defende, cobra!

(A autora é militante da Filial de Marília, SP)

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