Ruth Rocha
Todos os dias, Catapimba levava dinheiro para a escola para comprar o
lanche.
Chegava no bar, comprava um sanduíche e pagava seu Lucas, mas seu Lucas
nunca tinha troco. Um dia, Catapimba reclamou:
– Seu Lucas, eu não quero bala, quero meu troco em dinheiro.
– Ora, menino, eu não tenho troco. Que é que eu posso fazer?
– Ah, eu não sei. Só sei que quero meu troco em dinheiro.
– Bala é como se fosse dinheiro, menino. Ora essa...
Catapimba ainda insistiu umas duas ou três vezes, mas a resposta era sempre
a mesma:
– Ora, menino, bala é como se fosse dinheiro... Então, leve um chiclete, se
não gosta de bala.
Aí, Catapimba resolveu dar um jeito.
No dia seguinte, apareceu com um embrulhão debaixo do braço. Os colegas
queriam saber o que era. Catapimba ria e respondia:
– Na hora do recreio, vocês vão ver...
E, na hora do recreio, todo mundo viu.
Catapimba comprou o seu lanche. Na hora de pagar, abriu o embrulho. E tirou
de dentro... uma galinha.
Botou a galinha em cima do balcão.
– Que é isso, menino? – perguntou seu Lucas.
– É pra pagar o sanduíche, seu Lucas. Galinha é como se fosse dinheiro... O
senhor pode me dar troco, por favor?
Os meninos estavam esperando para ver o que seu Lucas ia fazer.
Seu Lucas ficou um tempão parado, pensando... Aí colocou umas moedas no
balcão:
– Está aí seu troco, menino.
E pegou a galinha, para acabar com a confusão.
No dia seguinte, todas as crianças apareceram com embrulhos debaixo do
braço. No recreio, todo mundo foi comprar lanche. Na hora de pagar...
Teve gente que queria pagar com raquete de pingue-pongue, com papagaio de
papel, com vidro de cola, com geléia de jabuticaba...
O Armandinho quis pagar um sanduíche de mortadela com o sanduíche de
goiabada que ele tinha levado...
Teve gente que também levou galinha, pato, peru...
E, quando seu Lucas reclamava, a resposta era sempre a mesma:
– Ué, seu Lucas, é como se fosse dinheiro...
Mas seu Lucas ficou chateado mesmo quando apareceu o Caloca puxando um bode.
Aí, seu Lucas correu e chamou a diretora.
Dona Júlia veio e contaram pra ela o que estava acontecendo. E sabe o que
ela achou? Pois achou que as crianças tinham razão.
– Sabe, seu Lucas – ela disse –, bode não é como se fosse dinheiro. Galinha
também não é. Até aí o senhor tem razão. Mas bala também não é como se fosse
dinheiro, muito menos chiclete.
Seu Lucas se desculpava:
– É, mas se eu não tiver troco?
– Aí, o senhor anota, e no outro dia paga.
Os meninos fizeram uma festa, deram pique-pique pra dona Júlia e tudo.
Naquele dia, nem houve mais aula.
Mas o melhor de tudo é que todos do bairro ficaram sabendo do caso.
E, agora, seu Pedro da farmácia não dá mais comprimidos de troco, seu Ângelo
do mercado não dá mais mercadoria como se fosse dinheiro.
Afinal, ninguém quer receber um bode em pagamento, como se fosse dinheiro.
É ou não é?
(A autora é Escritora)
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