Conciliação, caminho preciso para as soluções

Tharsila Prates


Quinta-feira, 16 de setembro de 1943
"Os relacionamentos aqui no Anexo pioram a cada dia. Não ousamos abrir a boca na hora das refeições (a não ser para botar comida), porque não importa o que se diga, alguém acaba se ressentindo ou entende de modo errado."

Trecho de O Diário de Anne Frank (a garota judia que se escondeu com a família e outros judeus durante a 2ª Guerra Mundial e, ao morrer de tifo em um campo de concentração, teve o seu diário descoberto e divulgado em todo o mundo).


Recentemente, na TV, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, afirmou que procedimentos alternativos, como a conciliação entre as partes, poderiam resolver mais de 60% dos casos que acabam virando processo judicial. E todo mundo sabe a demora que é para um processo ser julgado, justamente pela quantidade que existe. A falta de entendimento leva as pessoas a resolverem na Justiça problemas dos mais diversos, mas não necessariamente complexos. O que o programa da TV levou ao ar foi a briga de um homem com a família por causa de uma casa.

Não que isso não seja complexo, porque, quando as pessoas não se entendem e não conseguem estabelecer um diálogo, qualquer coisinha vira um problemão. Mas isso é tão ruim... Poderíamos partir do princípio de que somos todos seres racionais e, como tal, somos dotados de raciocínio, o que nos difere dos animais. O raciocínio bem trabalhado pode nos dar bom senso e é esse bom senso que permite que as coisas sejam resolvidas com calma, entendimento e cabeça fria (embora saibamos que há casos que não têm jeito mesmo).

O que se vê por aí, no entanto, são pessoas se agredindo verbal e fisicamente. O próprio fato de não ouvir o que o outro tem a dizer impede qualquer tentativa de conciliação, mas é esta que anda faltando nos nossos tribunais (e na nossa vida em geral). Por isso, eles estão abarrotados de processos: brigas de vizinhos, separações litigiosas, brigas familiares, dívidas e outros tantos exemplos.

A busca pelo entendimento exige ainda ser justo. Os nossos tataravós já cansavam de dizer que a nossa liberdade só vai até onde começa a do outro. E ponto final. Qual é a parte disso que é difícil de entender?

Todos nós sabemos, porém, que existem pessoas no mundo que são mesmo intragáveis. Não se pode conversar com elas sobre absolutamente nada. São pessoas que gostam de confusão, que estão sempre se metendo em encrenca, que sempre têm respostas na ponta da língua. Sabe ouriço-do-mar, que se espinha todo quando algo estranho se aproxima? Dessas pessoas a gente se afasta, não por elas, mas por nós mesmos. O afastamento evita mais discussões.

Em muitos casos a conciliação ainda é a palavra-chave e pode resolver mais da metade dos imbróglios. Basta querer, treinar e ir à luta (no bom sentido, sem estar "armado" para as conversas).

(A autora é Jornalista)

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