| Conhece-te
a ti mesmo Ninguém pode julgar alguém sem primeiro examinar bem
o seu íntimo, a sua maneira de ser e, sobretudo, a sua maneira de pensar,
pois nem sempre se demonstra o que se pensa, fazendo as coisas que
intimamente condena, por preconceito ou hipocrisia, mas completamente
diferentes da sua maneira de pensar.
Se pudéssemos todos ser sinceros para conosco mesmo, seria o ideal!
Quantas vezes, porém, não nos enganamos? Quanta escolha desacertada?! Quanta
deliberação mal tomada?! Ou não refletimos bem, ou não consultamos o nosso
íntimo.
Procuremos, pois, não nos enganar a nós mesmos. Sabemos que isso é difícil e
que a condescendência, a bondade, a amizade, são fatores preponderantes em
nossas resoluções. Toda criatura emotiva deixa-se levar pelo sentimentalismo
e sofre muito mais que as indiferentes, frias e até calculistas.
Quando vejo uma menina de temperamento sentimental, prevejo logo uma mulher
sofredora, facilmente iludida e enganada.
Ninguém pode modificar o seu temperamento, é certo, mas, à medida do
possível, é bom calejar um pouco os seus sentimentos e reprimi-los, usando
para isso de grande força de vontade.
A vida, hoje em dia, assim o exige. Os homens são muito pouco compreensivos,
e as mulheres têm que usar de muita tática para evitar fracassar uma união
que podia ser duradoura e que por falta de tato termina, muitas vezes, tarde
demais, quando já existem filhos, vítimas inocentes de todos os fracassos
matrimoniais.
Se a mulher é sentimental demais, sofre com a incompreensão tão natural nos
homens, pois todos têm uma dose, pequena que seja, de egoísmo. Se é realista
demais, também erra, porque os homens não podem ser levados à valentona, nem
por pirraças e represálias.
Só à mulher cabe saber viver. E por isso precisa usar sempre o raciocínio,
tendo tato bastante para saber levar os homens que, não sendo crianças, têm,
às vezes, atitudes de criança birrenta e teimosa.
Nunca parte deles nenhuma aproximação, quando erram, nenhum pedido de
desculpa. Eles são sempre os senhores! E mesmo que reconheçam que erram não
dão o braço a torcer.
Havendo, porém, amor e tato, é fácil tudo contornar e compreender. Mas
faltando isso, falta tudo, porque se apossa da mulher a decepção, o
desgosto, que a levam ao desânimo à incapacidade de lutar.
Por isso é que às mulheres sentimentais recomendamos um certo endurecimento
de seus sentimentos, pois se apaixonam facilmente e a paixão as cega. Mas
quando caem na realidade, são as que mais sofrem e as que mais fracassam por
não encontrarem conformação possível.
O homem precisa de afeto, carinho, mas, sobretudo, de compreensão; e, para
compreendê-lo, de muito, muito tato e observação. Depois de conhecê-lo bem,
então lidar com ele como quem lida com uma criança, atendendo-o, cuidando
dele, mas sem lhe dar confiança demais. Conservar sempre a sua personalidade
deve ser o primeiro cuidado da mulher, pois aquela que prescinde dela é
fatalmente um joguete nas mãos dos homens sem consciência e egoístas que,
embora não sejam todos, há na atualidade, infelizmente, um grande número.
Conhece-te, portanto, a ti mesma, mulher, os teus sentimentos, a tua maneira
de pensar e procura conhecer também o teu marido, para poderem viver em paz
e harmonia.
Maria Cottas
Do livro Páginas soltas
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