Conversa íntima

Passa-se a vida à procura de amigos para dividir os problemas, amigos que possam ouvir e aconselhar, de preferência em acordo com os próprios pensamentos; o ser humano detesta críticas.

Ainda em tenra idade os amigos servem para dividir brincadeiras, travessuras; na adolescência, as novas descobertas, as confidências do primeiro amor, e assim sucessivamente. Ao longo de todo viver terreno sempre haverá um 'melhor amigo' e provavelmente nunca será o mesmo, o que se procura é o cúmplice para a vida perfeita. Então, conhece-se o cônjuge e imagina-se ter encontrado o amigo eterno, aquele que além de tudo é passível ao toque. Em alguns casos isso é real, mas na grande maioria das vezes confunde-se química com alquimia, e quantas vezes um metal semelhante a outro não engana os olhos mais inexperientes.

Há certas crianças que não têm com quem brincar e criam personagens imaginários pelo poder ter companhia. Esse amigo é aquele que, quando convidado para as brincadeiras, está sempre disposto, que nos momentos de perigo assume e controle e traz a solução porque vence o medo; ele é imaginário, o que poderia atingi-lo? Este amigo é o 'Eu', o espírito, a força, o equilíbrio, o interior, e realmente o melhor e o eterno companheiro.

Assim, a melhor conversa íntima é aquela que temos conosco mesmos, buscando-se no âmago os medos, as angústias, o que não anda bem, e nessa introspecção, analisar tudo de maneira clara para buscar a melhor solução para as dores da alma.

Estar só é diferente de sentir-se sozinho. Solidão sente-se quando o barulho interior é mais assustador que o exterior. Caso contrário, é muito pacífico ouvir os próprios pensamentos. De qualquer forma o medo da solidão é inútil, porque no fim da existência de cada vida se estará só, nem aquele que trouxe a vida ao espírito poderá acompanhar no posterior a ela. Portanto, viajar só é uma constante, a família astral existe, os companheiros de vidas também, mas as travessias e sofrimentos serão sempre individuais e o que se angariou em cada vida será uma determinante para a comunhão ou a solidão.

Nas conversas íntimas consigo mesmo o ser aprende a conhecer a própria razão. Existem situações difíceis de vencer, mas a busca de si mesmo vai aos poucos trazendo este encontro com as vivências do passado, com as emoções incontroláveis e lentamente atravessa-se as intempéries terrenas rumo à evolução espiritual, aprende-se que no desmanchar de um problema está escondido outro.

Felicidade é a procura constante de cada ser. Quando a pessoa não está bem, quando se sente emocionalmente enfraquecida, procura ajuda médica, toma medicamentos que prometem o bem-estar constante, mas nada disso tem resultado definitivo, são paliativos de um rombo muito maior, e o único lugar que guarda o sentimento de paz está dentro e não fora como se julga, a psicanálise ajuda mas não resolve, se o indivíduo não se sentir único; as pílulas acalmam a erupção, mas não calam o vulcão emocional que existe em cada ser.

O que está acontecendo? Qual o aborrecimento? O que fazer para mudar a situação? Essas devem ser perguntas constantes a se fazer ao espelho. Não se deve deixar o melhor amigo chegar ao fundo do poço para buscar a solução. Cuidar de si mesmo, ter auto-estima, auto-confiança, nenhum profissional, por mais competente que seja, pode curar uma alma doente a não ser que este espírito cansado de ficar para trás no caminho da evolução resolva aperfeiçoar-se.

"A vida é contínua luta entre o interior e o exterior, entre o vício e a virtude, entre o amor e o ódio." E como custa este aprendizado! Neste eterno ir e vir importa é refinar espiritualmente a mecânica da vida para conhecer-se e dirigir-se, e o primeiro passo está nessas conversas solitárias, nessa auto análise de hábitos e costumes, nesse controle tão difícil de ser feito para que se evite contaminar o viver através do uso indevido do livre-arbítrio, tomando-se decisões apenas levado pelas emoções. É preciso ser racional, é preciso saber aonde se quer chegar, e se o caminho for árido, que haja resistência. A verdade é que as pessoas, quando analisadas de perto, são todas estranhas, porque cada ser carrega a carga evolutiva individual e obrigado à miscigenação espiritual.

Muitas vezes, depara-se com espíritos de ínfima escala evolutiva, mas atados pelos laços do amor aprende-se a pacientemente treinar a tolerância, e se as pessoas agem de forma inesperada para não haver aborrecimento, aquele que carregar maior sabedoria que mude seu modo de agir e aprenda.

Não se pode transformar o mundo, mas se pode mudar a maneira de reagir às coisas presentes neste mundo. Nas palavras de Mário Quintana, "ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Felicidade é um sentimento simples!"

Heloisa Ferreira da Costa


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