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Apelo contra o crack (final) Ronaldo Silva A droga leva mente, nervos, músculos e sistemas a total agitação e irritação mental Voltamos a falar do crack e dos danos que seu uso causa aos usuários. Na edição de setembro de A Razão, falamos de um rapaz de aparência mal cuidada e enganado com relação à realidade. Descrevemos sua ansiedade, sua obsessão por consumir cada vez mais a droga que o levará à morte. Com a ajuda do endocrinologista João Antonio F. de Oliveira, voltamos a falar da nossa personagem, exemplo que facilita a compreensão do que a dependência do crack pode fazer com o ser humano. Num local em que julga estar fora do alcance dos olhos de outras pessoas, o rapaz diz, a médio tom de voz, para ele mesmo ouvir: "Não tem mais ninguém aqui. Estou sozinho, posso fazer o que quero." Está no mato, junto ao cemitério municipal de Cachoeiro de Itapemirim (ES), próximo ao centro da cidade e de colégios, onde a circulação de jovens é constante. A mata aqui é igual à praça central da cidade. É um entra e sai de gente de todas as idades e classes sociais, como faz o rapaz que agora inicia o trágico ritual com uma lata de alumínio na mão. Executa o ato bem próximo aos olhos. Além da incapacidade de enxergar, há a dificuldade do tato e descontrole muscular nos dedos em manter as mãos fechadas e segurar as coisas que pega. Prazer e delírio o incapacitam. Ele retorna à vida psicológica emotiva, transforma-se num menino alienado por impulsos instintivos num processo que revela reações bruscas e violentas, de pouco ou nenhum raciocínio, com o mínimo de idéias gerais, e a sua linguagem, a fala, profere somente palavras necessárias para expressar a idéia fixa de querer mais droga. "A mente, nervos, músculos e sistemas entram em total agitação. Surge a irritação mental, a idéia fixa e obsessiva", diz o endocrinologista. O instinto, agora, mantém a vida. Tudo começa no sangue, fluido que garante a vida. Some da célula o açúcar (glicose). "É o efeito destrutivo do crack ao entrar na corrente sanguínea. A intensa queima da glicose, a responsável pelo transporte do oxigênio celular até o cérebro", diz o médico. É visível que a pele muda de cor, assume tom amarronzado, sem brilho, cadavérico. “A fim de conter o mal”, explica o médico. "O pâncreas, nas ilhotas de Langerhans, produz o hormônio hiperaçucarado (glucagom), para reparar o estrago celular e levar oxigênio ao centro de comando do corpo", explica. “Essa ação é feita sempre que o uso da droga resulta no tumor pancreático", acrescenta. Explica o endocrinologista que o fígado transforma glicogênio em mais açúcar provisório para compensar as necessidades do organismo. Açúcar demais põe em risco o organismo, certo? "Exatamente isto. O pâncreas joga insulina nas células, reduz a taxa de açúcar ao mesmo tempo em que favorece a distribuição e utilização da glicose pelos tecidos do corpo", explica João Antonio F. de Oliveira, acrescentando que todo o tecido muscular do corpo reage como uma bola de soprar cheia e esticada ao limite. Esclarece também que "ocorre a vasodilatação dos tecidos; é o inchaço do corpo, resposta imediata de aceleração dos batimentos cardíacos muito fortes, e suor intenso". Esse organismo agredido pode perder o equilíbrio e a harmonia. "Então a glândula de estímulo energético, as supra renais, jorram adrenalina para apressar, dar força e alongamento ainda mais aos batimentos do coração. É aí que os vasos sanguíneos são contraídos, fortemente espremidos, porque o açúcar os dilata". Relata e amplia que efeito a situação desencadeia. "De novo há a elevação do açúcar no sangue e a pressão alta é inevitável", explica o médico. A vida escoa na fumaça que inunda o organismo. É assim que o dependente do crack é levado ao crime e à idéia fixa de se drogar. O pensamento de sentir o prazer vivido na primeira vez em que usou a substância gera o motivo pelo qual a vontade alienada é movida dos estados da consciência espontânea, que não são unidades fundamentais da vida do espírito, mas percepções, evocadas das sensações atuais, para o efeito elementar de prazer e de dor. (O autor é jornalista) |
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