Apelo contra o crack

Ronaldo Silva

Parece apenas ou é loucura mesmo? Um rapaz esquelético, de aparência descuidada, enganado com respeito à realidade, diz a meio tom de voz: “O desejo é tão intenso, que meu corpo quer estar sem nada no interior dos órgãos, a fim de curtir o efeito do crack”.

Esse o quadro patético que proporciona um viciado, já em total descontrole intestinal, vivendo em parte sombria e fétida de uma mata, ambiente repugnante que estimula o vômito. Ele anseia por nova dose da fumaça ácida que cozinha e faz murchar os tecidos orgânicos, que impregna de gases venenosos as células, em resumo, que mata aos poucos.

 A queima da substancia maléfica, provocadora do incômodo emocional  que o acomete atiça a vontade por ficar ali, de cócoras, com os músculos retesados a ponto de sofrer um colapso. A ansiedade por inalar a névoa, demonstrada no olhar arregalado, mostra que a mente e os sentidos estão fixos na idéia de que alguém vem  descobrir seu crime contra si próprio.

Esse pensamento obstinado é o prenúncio de uma condição doentia mantida em tempo integral e que tende a aumentar. Em breve, espírito e corpo estarão atrofiados pela impressão de perseguição a que o jovem é submetido. A mania se instala na memória e, fortalecida na prática contínua do uso e costume de ser observado habitualmente, não permite ao usuário do crack diversificar a ideia. Esta torna-se a sua segunda natureza interior. Apaga as lembranças e ideais da alma, desvia a ação da força atuante no ciclo da natureza que promove o curso da vida, inutilizando mais essa pequena parte desse enorme universo.

Os gases, sob alta temperatura, inundam a boca da vítima, assam-lhe as glândulas responsáveis pela absorção de nutrientes e conduzem aos órgãos fluidos fundamentais para as muitas funções que o organismo executa em prol da vida saudável do corpo. Sistemas de alimentação e equilíbrio corporal são irremediavelmente destruídos, descreve o médico especialista em nariz, ouvido e garganta Lucimar de Assis.

“Os sistemas de filtragem e excreção das impurezas vindas do ar e de outros meios, feita na mucosa da boca, garganta e nariz, perdem a capacidade de eliminar as secreções acumuladas na faringe, laringe e nariz. Com isso, a formação de placas duras de catarro gera infecções que levam o usuário da droga a uma vida  de problemas irreversíveis que debilitam  a saúde,  deformam e mutilam essas áreas internas do organismo", explica o médico.

A palidez inicial logo altera a cor do corpo todo  para um tom amarronzado, sem brilho, desbotado e cadavérico. "É o efeito destrutivo do crack ou da cocaína na corrente sanguínea. É intensa a queima da glicose, veículo para o transporte de oxigênio até o cérebro, assim também com a energia para as células viajarem pelos órgãos. No pâncreas, as ilhotas de Langerhans formam o hormônio hiperaçucarado, a fim de reparar o estrago sofrido pelas células no sangue, e levar oxigênio ao cérebro; o que no futuro resulta em tumor no pâncreas. O socorro do fígado é transformar glicogênio em mais açúcar provisório para compensar as necessidades do organismo num todo. No entanto para evitar o excesso de açúcar circulante, o pâncreas joga  insulina nas células, reduz a taxa de açúcar ao mesmo tempo que favorece a distribuição e utilização da glicose pelos tecidos do corpo. Ocorre a vasodilatação dos tecidos; é o inchaço do corpo mais a resposta imediata de aceleração dos batimentos cardíacos muito fortes, e suor. A glândula de estímulo energético, as supra renal, entra em cena. Jorra adrenalina para apressar, dar força e alongamento ainda mais aos batimentos do coração. Contraem-se os vasos sanguíneos e apertam-se fortemente, uma vez que o açúcar os dilata. Novamente há a elevação do açúcar no sangue e a pressão alta é inevitável. A tanto a mente, nervos, músculos e sistemas entram em total agitação. Ou seja, irritação mental e bloqueios com uma idéia fixa e obsessiva" descreve o endocrinologista João Antonio F. de Oliveira.

É assim que o ex-humano e dependente da droga é levado ao crime e à idéia fixa de querer mais e muito da droga. Isso o faz pensar unicamente em como ter em todo o tempo o veneno que o mata, e que ele não sente, porque só tem de si, no corpo inteiro, a vontade de ficar alienado ao produto que dissimula um estado de satisfação e prazer até o momento da própria morte.

(O autor é  Jornalista)

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