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Crise de confiança globalizada
Clecy Ribeiro No cataclismo atual, ainda não chegamos ao fundo do poço. A bolha continua sob pressão Apensar em divulgar apenas uma colagem de tantos alertas, arrastados ao longo de bem uns dez anos, contra o descalabro da especulação e ganância desmedidas, pouco seria o espaço. Previa há tempos George Soros, magnata especialista em investimento de risco, o estouro da bolha norte-americana. Com sobras esparramando-se. Pura e simplesmente, porque os desvios no mercado financeiro são a regra, não a exceção. E porque o paradigma tradicional – o laissez-faire tão defendido por Reagan e Thatcher nos anos 80 –, estaria baseado em premissa falsa: a crença de equilíbrio nos mercados, com autocorreção. Para Soros, esta crise ainda não chegou ao fundo do poço e tende a marcar o fim de uma era de orgia creditícia baseada no dólar. Moeda sujeita a altos e baixos de risco calculado, o dólar cumpre seu papel na crise atual. Em entrevista coletiva quando de encontro de ministros das Finanças em Paris, em 18 de maio de 2003, o então secretário norte-americano do Tesouro, John W. Snow, mostrou-se muito à vontade com a queda do dólar frente ao euro e ao iene. Segundo experts, mensagem clara: luz verde para empresas norte-americanas já em lucro, bem como as estrangeiras operando em território dos Estados Unidos. Um ano depois, o dólar ainda afundando calculadamente, os mercados submeteram-se; os especuladores aproveitaram. Como aproveitam agora a alta, igualmente calculada. Uma recuperação inerente a quem dita escolhas econômicas e monetárias. Um refúgio na moeda ainda de referência, à falta de alternativa sólida no euro ou outra moeda. CONFIANÇA. Borrascas financeiras não são inéditas, mas anunciadas. Doa a quem doer. Da farândola dos bilhões de salvamento, emerge a natureza da crise, mais profunda: confiança. Para as vítimas, só há uma incerteza agora – as proporções. Tudo o mais é certeza. Quem se preocupa com o risco global, se sequer vela pelo risco individual, apenas pensa em lucro? Assim, cresce o risco fabricado. Dentre as grandes turbulências mundiais registradas (1987, 1997, 2000, 2007), o economista espanhol Joaquín Almunia define esta como uma crise de avareza. Pensadores contemporâneos invocam o que a globalização, pacote de mudanças de dimensões vastas, vem fazendo a nós, deixando o mundo em descontrole, carente de mais e mais governo. Alarde em 1999, com O Lucro ou as Pessoas, no qual o escritor e professor Noam Chomsky refere-se à paixão pelo laissez-faire como "a disciplina do mercado para vocês e não para mim, a menos que o 'campo de jogo' esteja inclinado a favor dos meus interesses, geralmente como resultado da intervenção estatal em larga escala..." Nesse mesmo ano, o sociólogo Anthony Giddens perguntava-se o que a globalização está fazendo a nós, aonde estamos indo. Não seria também de indagar como nós fazemos mau uso da globalização? Como estamos despreparados para atingir a plena democratização? No paradoxo da democracia disseminada ao custo de desapontamentos, desilusões, desconfiança, a resposta pode estar no próprio ser humano. Soa ainda inaudível esse alerta. Mas o equilíbrio dos mercados pode estar no equilíbrio do homem. Menos materialismo, mais espiritualidade. (A autora é jornalista) |
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