Heloísa Ferreira da Costa
Na última reunião mensal de militantes do mês de maio, foi lida uma
circular sobre o centenário do Racionalismo Cristão e as metas a serem
alcançadas nos próximos anos. Nesta circular consta que os militantes no
mundo somam 5 mil. Comparando-se esse número com a população mundial,
parece muito pouco. Isto me fez lembrar a parábola do pássaro que tenta
apagar o incêndio na floresta, levando uma gota de água no seu bico,
diante de um fogo imenso.
Como temos visto frequentemente na mídia, e mesmo em nossas cidades,
estados, país, tantas são as tragédias, mortes prematuras, muitas delas
ocasionadas por estados obsessivos que tão bem conhecemos e que sabemos
como cuidar, mas, passarinhos que somos, não conseguimos alcançar as
mentes daqueles que precisam de ajuda e que estão tão embotados pela
mística religiosa e pelas maravilhas dos medicamentos modernos voltados
para o tratamento e cura da depressão, que se fecham à voz da razão,
julgando tratar-se de uma ilusão dos sentidos.
Por outro lado, verificamos número excessivo de mortes de muçulmanos em
países capitalistas, e todos guerreando por um mesmo objetivo, impor seu
“Deus”, sua fé, sua razão, a lei do “olho por olho, dente por dente”; o
gosto pelo sentimento de vingança que aparece em novelas, filmes e que
parece mover o mundo e as leis dos homens.
Quando se acompanha os restos mortais de uma vida tirada prematuramente
por estados doentios da alma, o que se verifica é um estado meio superior
e aquela sensação de ‘ainda bem que não foi comigo, que não aconteceu na
minha família’. Fica-se procurando causas, problemas financeiros, de
saúde, tristeza mórbida... e nenhuma das respostas parece alcançar seu
objetivo, porque estão todas erradas, a obsessão não começa do dia para a
noite, são muitos anos de pensamentos confusos, que sempre atraem a mesma
qualidade de forças, e, quando não reconhecidas por desconhecimento das
leis da vida, acabam alcançando seu objetivo final, geralmente na meia
idade, quando a maturidade leva a questionar se a vida que se tem é aquela
que se planejou ter.
A vida humana precisa ser dividida em duas vertentes, uma espiritual e
outra material, são partes que não se juntam, mas não se separam, as
dúvidas sobre o próprio viver é um questionamento tão velho quanto o
mundo. Na literatura, nas artes, o homem vem há séculos questionando “ser
ou não ser?”, e parece estacionado sempre no mesmo lugar comum, a
religião, que ao mesmo tempo promete salvar e escraviza, porque deixa as
causas de tudo fora do próprio ser humano, subordinando-o a uma entidade
superior que decide os caminhos e descaminhos que ele segue.
A segurança proporcionada pela filosofia racionalista cristã é obtida por
meio de um trabalho diário do ser humano (Força e Matéria) contra as
intempéries do mundo exterior, mas principalmente do seu interior. A
importância do pensamento não pode ser considerada apenas quando se está
em situação de adversidade, o espírito precisa ser preparado todos os
dias, todos os minutos, porque a cada ação que se tem gera-se uma reação
que poderá ser sentida no momento da ocorrência ou anos, séculos, vidas
depois, e essas consequências podem ser evitadas com o conhecimento da
vida fora da matéria.
Parece que é mais fácil difundir uma patologia do que uma ideia. Em
documentários sobre saúde, de transmissão de doenças, vê-se como é difícil
aos pesquisadores reconhecer o fator etiológico e interromper a cadeia; o
mesmo acontece com as ideias: radicalismos religiosos ou políticos levam
os seres cada vez mais para o fundo de um poço que parece sem fim.
Apesar de este texto parecer triste, é uma apologia contra a tristeza.
Assistindo a um filme ouvi a seguinte frase: “Tristeza é como chiclete,
mastiga-se até perder o gosto, ficar sem graça, aí se joga fora!”.
Acompanhar mortes sem sentido deve servir como gatilho para aumentar o
ânimo, para fortalecer esta corrente do bem, como diz uma propaganda atual
de refrigerante, acreditar que o bem é maioria, que é capaz de resolver
uma série de situações. Imaginem como estaria o mundo, se nós, os
passarinhos, não estivéssemos atentos, trabalhando, propiciando ao Astral
Superior arrebatar desta atmosfera carregada seres com sentimentos
inferiores, que são responsáveis por tantas tragédias. Não devemos
esquecer o fim da parábola, em que o pássaro responde àquele que o
questiona sobre quão pequena é a sua contribuição, diante de um fogo tão
grande: “Pelo menos, eu estou fazendo a minha parte!”
Conversando sobre esses pensamentos com meu irmão, Nelson Ferreira da
Costa Filho, presidente da Filial Marília (SP) do Racionalismo Cristão,
ele me disse, podemos ser somente passarinhos, mas somos passarinhos bem
fortes.
(A autora é militante da Filial Marília, SP)
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