De um modelo a outro
Clecy RibeiroO fiel da balança mundial
afasta-se definitivamente do Ocidente. Pende para a Ásia, continente com a
prioritária determinação de crescimento econômico, promovendo seu modelo
intervencionista, garantia de poder. Ciosos, seus países lembram como
saíram-se bem da crise financeira de 2008, graças à estratégia de canalizar
recursos oficiais para setores estratégicos, controlar bancos e corporações.
“De fato, a Ásia apresenta-se agora como o único motor crepitando a economia
mundial”, constata o autor Joshua Kurlantzick (Current History, janeiro
2011). O FMI corrobora: são as importantes economias asiáticas emergentes as
que lideram a recuperação global.
Hoje, na região Ásia-Pacífico, potências
ressurgem ou ascendem.
Diferentemente do Ocidente, sem instituições multilaterais, destaca-se o
poder hegemônico da China. A cada um dos outros países cabe a escolha:
submeter-se ou fazer alianças. Associada ao crescimento inconteste da China
e circunvizinhanças, a região conquistou o rótulo de participante maior no
sistema internacional, expandindo sua esfera de influência. “Nenhuma região
do mundo permanecerá imune à ascensão da China e Índia”, prevê pesquisa do
Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento.
Mas ainda não entramos no século da Ásia, garante Kurlantzick. E ele
chegaria com turbulência política. Há zonas de recursos naturais alvo de
conflitos, desafios demográficos e ambientais, desigualdade social que, de
resto, tende a agravar-se com o envelhecimento da população, causado por
políticas de controle da natalidade (China, Coreia do Sul). Como ingrediente
do modelo não-ocidental conta também a política anti-imigração, da qual
Cingapura é comprovada exceção.
CHINA. O dinâmico eixo Ásia-Pacífico começa a crescer com o Japão potência
econômica, nos anos 1970 e 1980, depois com os tigres asiáticos. Em 2000, a
China tomou decisivamente o caminho da globalização, assumindo-se como fonte
ímpar de investimentos diretos no exterior. Ganhou sócios comerciais
importantes no setor de recursos naturais, como a Nigéria, Sudão, Argélia. E
desponta como primeira potência mundial, jogando os Estados Unidos para
segundo lugar honroso, lá pelo metade deste século. Já a Índia adota modelo
de crescimento distinto, com uma área de serviços dinâmica, sobretudo
voltada à tecnologia da informação. É candidata ao quarto posto na lista dos
grandes, que deixa a União Europeia em terceiro lugar, segundo os atentos
futurólogos.
A balança põe peso também no mundo árabe “moderado” ou pró-ocidental, ora
envolto em onda de revolta política. Revolta de tes tes e uma juventude
instruída e frustrada, hoje já adulta, ávida por, enfim, desalojar governos
que nada lhe acrescentam. A mágoa, anos a fio reprimida, inchou diante da
falta de perspectiva. Vem mais por aí, alertam alguns analistas. A pororoca
pode atingir o Golfo Pérsico, de monarquias até então imunes, o Iêmen, a
Arábia Saudita. Pesquisa da Population Action International é contundente:
80% dos conflitos mundiais entre 1970 e 1999 começaram em países onde 60% da
população tinham menos de 30 anos. “O som do futuro”, diz Mona Eltahawy,
referindo-se ao Egito, no Twitter monaeltahawy (The New York Times
28-1-2011). O som da juventude já adulta, embora muitos anos atrás do
envelhecimento populacional ocidental e asiático, ora em plena corrida.
SEGURANÇA. No tripé pró-ocidental, Oriente Médio e Europa vinculam-se a
questões de segurança e união político-social, respectivamente. O primeiro
continua a atrair as atenções internacionais. Terrorismo, o maior problema,
embora o petróleo guarde seus encantos industriais – e vitais. Região
instável. Israel representa uma variável chave nas perspectivas de
segurança; o Irã, com veleidades de liderança, sofre uma política externa de
contenção; o Iraque continua “inacabado”.
Quanto à Europa, enfrenta dificuldades econômicas, adaptação aos problemas
de uma população envelhecendo ao longo do século XX, falta de integração das
minorias muçulmanas. A Rússia tem futuro menos promissor do que augurava e
aparenta. Aceita a corrupção perene, continua a depender das exportações de
matérias-primas e sua estrutura militar só conta com o arsenal nuclear. Ao
contrário do mundo árabe, a Europa tende rapidamente à desmilitarização. E,
com o decrescente envolvimento dos Estados Unidos, deve manter-se ocupada
com os próprios afazeres, sem papel militar no Oriente Médio ou Ásia.
Parece que uma década apenas separa o mundo de tempestades maiores, estas
associadas ao envelhecimento. Demógrafos apontam os anos 2020 como o momento
de risco máximo. Regiões envelhecem (Ásia, Américas, Europa), outras
explodem sob o clamor dos jovens (Sub-Saara africano e parte do mundo
muçulmano). O eixo mundial começou a mudar, ameaçando o sistema
internacional de núcleo ou interesses ocidentais. Acabar com ele, uma
questão de mais ou menos tempo. Porque a obsessão do progresso, do
equilíbrio global, continua a quebrar cabeças. Bem como a disputa latente
Ocidente-Oriente. Já há até quem profetize: os dois lados vencem ou perdem –
juntos.
(A autora é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso,
RJ)
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