Desastre anunciado

Clecy Ribeiro

Continente agrícola por excelência, a África não mais foge à regra geral: o crescimento urbano caminha a 7% ao ano e 40% das populações já vivem em cidades. Em 2030, serão 760 milhões de cidadãos, dos quais 70% em favelas e habitação precária, nas periferias. A metade da população urbana, majoritariamente com menos de 25 anos, vive com dois dólares por dia.
País dos mais pobres na África, a Somália cerra a península arábica como um chifre, prolonga-se até o Quênia. País de secas, pirataria, superexploração da pesca de subsistência, caça aos terroristas e aos que fogem da violência permanente e inusitada, da penúria e inanição, do conflito interno, comércio ilegal, desgoverno. Que quadro para o século XXI, de alta tecnologia e grandes conquistas!... Só o humanitarismo parece não vingar ali.

De 1960 a 1977, a visão da Grande Somália esfumou-se em Ogaden. Pedra angular do projeto, essa comunidade islamita somali na cristã Etiópia (presente do governo britânico) foi invadida como primeira passo. Derrota frustrante. Said Barre arma, então, um milhão de refugiados etíopes no norte do país. Confirma-se a fragmentação dos clãs e abre-se a frente Norte-Sul ao conflito.

Em 1981, o Norte rebela-se. São dez anos de luta. A ditadura cai em 1991. “Em sua queda, Siad Barre arrasta toda a Somália: o combate para derrubá-lo transformou-se em verdadeira guerra civil... À medida que Mogadíscio mergulhava no caos, saques e mortes multiplicavam-se. Bandos de rebeldes devastavam bairros inteiros, incendiando as casas; pais fugiam, abandonando os filhos...” como Ayaan Hirsi Ali evoca o conflito, na autobiográfica Minha Vida Rebelde. Corajosa, ousou abandonar tudo e viver na Europa e, depois, Estados Unidos. Um relato intenso, de sofrimentos, ritos ancestrais, sectarismo, desigualdades e injustiças. E o desgaste da guerra infindável, filas intermináveis nos campos de refugiados, expectativa angustiante. “... Toda essa gente se assemelhava a fantasmas. Caminhavam, caminhavam e perdiam tudo no caminho. Alguns viram morrer os filhos, os bebês sobreviventes eram magros, exauridos. Todos afrontaram bandidos, cruzaram campos de batalha. Em seus olhos, via-se o caos. Podia-se dizer que regressavam de uma viagem ao inferno...”

Este ano de 2011 não ressoa muito diferente. Navios europeus continuam avançando sobre o mar pesqueiro somali, esgotando a pesca e saqueando estoques. A pirataria cresce, na forma de uma Guarda Costeira Voluntária. Tenta, alega, dissuadir a exploração ou cobrar taxas e resgate das tripulações e cargas apresadas. E também evitar o despejo de lixo nuclear em suas águas – um método mais barato, ora em uso.

Os refugiados constituem ainda a parte mais sensível, ou visível, do cenário somali. O conflito interno persiste, com violência rara, além dos piores momentos da guerra de 20 anos. A seca do início deste ano deixou 2,4 milhões de somalis em situação de emergência e índices de inanição alarmantes.

Em julho passado, a ONU decidiu agir frontalmente. Seu coordenador de assuntos humanitários para a Somália, Mark Bowden, estima em US$ 300 milhões os gastos para cobrir, por dois meses apenas, as necessidades alimentares da população das zonas afetadas e campos de refugiados. Há um milhão e meio de desalojados no próprio país, mais um milhão no exterior: Etiópia, Quênia, Djibuti, Iêmen; Austrália, Grã-Bretanha e países escandinavos; Minneapolis, Estados Unidos.

Em iniciativas isoladas, Jill Biden, mulher do vice-presidente americano Joseph Biden, e Os Médicos Sem Fronteiras arrecadam fundos via internet. Parece que a ajuda à África, por canais oficiais, deixou de ser a resposta. Benefício sempre em atraso (falta de presteza dos doadores, burocracia), às vezes desviado a meio caminho. De resto, os doadores, esposando cortes nos gastos, abandonam o palco. Portanto, pouco ou nenhum impacto na redução da pobreza geral. Os que advogam uma ajuda real lembram a fórmula: mais crédito para pequenos e médios negócios. Uma via para reduzir a dependência, corrupção e a complexa rede de paraísos fiscais/fuga de capital.

Não bastasse tanto transtorno, a Somália deve lidar ainda com a radicalização do contraterrorismo. Para os Estados Unidos (um tanto relutantes, no caso da Somália), o país seria um incubador da Al-Qaeda. A milícia Shahab estaria acolhendo fugitivos do Afeganistão. Mas, para os somalis, o problema recai no desgoverno de seu Estado fraco, ao qual se alia a ameaça latente configurada pelos aviões de controle remoto – a nova arma de escolha do presidente Obama, no mundo novo da guerra robótica. E já em uso no Paquistão, Afeganistão, Iêmen, Líbia e até contra os milicianos somalis.

O Governo Federal de Transição nem mesmo controla a capital, Mogadíscio; apenas parte dela. Clãs oportunistas, radicais e rivais, têm passe livre. Ao norte, Putland, coração da pirataria, semiautônomo. No sul, os milicianos, agindo até a fronteira queniana. Cruzam essa conturbada Somália rotas importantes de abastecimento de víveres para a Etiópia, Djibuti, Quênia. E, principalmente, rotas de transporte de armas.

Na tênue fronteira entre o legal e o ilegal, o mercado somali opera em total desregulamentação. O país funciona como uma grande zona isenta de taxas, na junção da África, Golfo de Áden e Oriente Médio. Vê transitar toda sorte de mercadoria, desde carneiros e camelos a produtos manufaturados procedentes de Dubai, com destino ao leste africano e aos países encravados nos Grandes Lagos.

Multiplica-se o tráfico de todo gênero: produtos proibidos pelos tribunais islâmicos saem do Iêmen e Etiópia; clandestinos vão para o Iêmen e Arábia Saudita; armas partem do Iêmen para a Somália ou em trânsito para o Quênia e Etiópia. Uma dinâmica comercial explode na diáspora. Criam-se negócios graças a redes de telefonia móvel e internet, que permitem o envio de remessa às famílias. Diz-se, mesmo, que o produto mais exportado pelos somalis é sua mão-de-obra. Quem preenche lacunas nessa economia de tensões políticas são agências islâmicas de ajuda, voltadas principalmente ao ensino nas escolas islâmicas.

Um paradoxo: a Somalilândia, ao norte, independente desde 1991, desenvolve-se com certa notabilidade em meio ao caos. O pesquisador francês Gérard Prunier (Diplo, outubro 2010) a considera uma “exceção” no Chifre da África, onde o mergulho da Etiópia para um conflito interno generalizado concorre para desestabilizá-lo. O jogo de poder ainda inclui a Eritreia, e reproduz, segundo alguns analistas, uma guerra fria regional em miniatura.

Há quem se ocupe da “outra história da África”. Aquela que apresenta os africanos com criatividade e dinamismo para lidar politicamente com as explosivas tensões étnicas. E, a partir daí, conforme o cientista político Ebere Onwudiwe, afrontar “os intratáveis problemas do desenvolvimento”, inerentes tanto à África quanto a outros continentes. A silenciosa revolução política já começou, afirma.

(A autora é jornalista, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso, RJ)
 

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