Nossa relação com o dinheiro

Heloísa Ferreira da Costa

A grande maioria das pessoas sonha enriquecer com prêmio de loteria

Se perguntarmos a qualquer ser humano qual o seu maior sonho, cerca de 85% responderão que é acertar na mega-sena. A certeza de que o dinheiro traz felicidade é mais bem aceita do que as evidências de que o cigarro causa câncer. Quanta falência moral e perda de vidas não têm sido presenciadas pela ganância excessiva! Dois casos foram destaques, um na mídia nacional, no caso do milionário da mega-sena, outro internacional, da ex-garota da revista Playboy que se casou com um octogenário bilionário nos anos 90, e perdeu sua vida física no último dia 8 fevereiro, aos 39 anos. A riqueza e beleza física, definitivamente, não foram razões de bem-estar interior. Ao contrário, sua vida é um dos retratos mais tristes da materialidade reinante na sociedade contemporânea.

Um dos instrumentos de aferição da saúde psíquica é exatamente a relação da pessoa com o dinheiro, a maneira como o dinheiro é utilizado ou não pode espelhar algum distúrbio psicológico, lidar com o dinheiro é só uma faceta socialmente aparente de outros comportamentos que causam sofrimento. Um levantamento da Associação Nacional de Consumidores do Sistema Financeiro (ANDIF) mostrou que, dos que estouram seus limites em cartões de crédito e cheques, 68% o fazem em farmácias e supermercados. Provavelmente o gasto está relacionado a medicamentos para má digestão, colesterol alto, diabetes, devido à alimentação errada, e antidepressivos, para anestesiar a mente contra o estresse que as dívidas provocam, ou seja, um círculo vicioso que faz muita gente abdicar dos seus sonhos. Em outro estudo, verificou-se que um indivíduo empregado que ganha R$ 2 mil e tem cartão de crédito e cheque especial no mesmo valor e leva padrão de vida de R$ 6 mil não consegue sustentar esta situação por mais de quatro meses. Começa a dever R$ 500 e chega a R$ 15 mil. E isto não é só no Brasil. Uma dona de casa americana deve em média US$ 9.200 às operadoras de cartão de crédito.

Como alguém pode evoluir espiritualmente se está com os credores batendo à porta? As dívidas contraídas, seja por vaidade, seja por vício, fazem o indivíduo renunciar a toda sua dignidade; a situação de reserva, o fato de ter que ocultar faltas, sentir necessidade de mentir para sustentar as boas aparências é altamente prejudicial ao caráter.

O dinheiro permite a sobrevivência, cobre a necessidade de abrigo e alimentação, educação, lazer e diversão; ou competição, compensação de auto-imagem negativa, exibicionismo; ou ainda um arraigado complexo de inferioridade, buscar a felicidade no fundo de uma sacola e perceber que ela não estava lá é muito comum.

Tratar as questões financeiras com excessiva reserva é um hábito bem enraizado na cultura brasileira, e essa forma de agir acaba inevitavelmente infiltrando-se nas famílias e nos relacionamentos. Por isso é necessário educar as crianças para que saibam dar importância ao dinheiro, uma má educação pode criar um futuro "gastão", perfil psicológico de quem vai ao shopping e gasta além da conta, perde dinheiro em jogo, vive no SPC, tem rolos intermináveis que afetam o âmbito familiar e profissional. As pessoas com problemas financeiros apresentam momentos de euforia que se alternam com momentos de melancolia, acreditam, então, que um "Deus" todo poderoso tornará as coisas melhores em detrimento da conservação de um projeto de vida. Infelizmente, as dívidas podem levar à obsessão e arrastar de roldão todos ao seu redor.

Para se ter inteligência financeira é preciso saber quanto de dinheiro está entrando em sua vida e quanto está saindo, o que se está trocando pelo dinheiro. Este é o perfil psicológico do "equilibrado", alguém que gasta dentro do que pode e tem sonhos compatíveis com seu perfil sócio-econômico.

 É muito difícil nos dias de hoje diferenciar supérfluo de essencial. Por isso as compras são feitas por impulso, a palavra certa para se pensar é "suficiente", deve-se buscar o dinheiro suficiente para a sobrevivência, conforto e alguns pequenos luxos, o suficiente é um platô abrangente e estável, é um lugar de consciência e liberdade.

Comprar é bom, claro, faz parte da vida física, mas o planejamento do futuro e a eleição de prioridades para que não se comprometa a paz espiritual devem ser levados em conta. É preciso lembrar sempre que o trabalho deve ser fonte constante de satisfação e realização pessoal.

(A autora é militante da Filial Marília, SP)

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