Disciplina e trabalho

A Razão publicava em janeiro de 1955

Na movimentação colorida das imagens e idéias desta crônica, vislumbra-se o poeta insigne – burilador insatisfeito de A Estrela Azul, A Escadaria Acesa, As Sete Cores do Céu e tantos relicários de emoções e sentimentos – definindo a vida em seus primórdios, exaltando trabalho e disciplina e a vitória de cada instante, que é viver! Vamos lê-la:

O mundo é ação e ordem, Força e Matéria, massas em movimento e inteligência anímica, energia e ritmo. De certo modo se diria talvez – a vida é trabalho e disciplina.

A repetição de operações simples, a princípio sob o impulso de propriedades físicas, forma a relojoaria admirável do complexo universal e faz brotar a vaga consciência dos seres, a alma instintiva da planta e do animal, e enfim o poderoso espírito do homem. É sempre a sequência ordenada de fatos que preside ao nascer de todos os fenômenos – a criação e a gravitação dos astros, as estações do ano, a todos os aspectos surpreendentes da existência infinita. Há uma visível disciplina no Universo, disciplina que não haveria sem o esforço, sem o trabalho que gera a coesão dos corpos, a renovação celular das plantas e dos tecidos animais, a defesa dos seres contra os agentes do meio externo, toda essa vitória de cada instante que é viver.

Tudo se move, mas tudo se move em cadência disciplinada e fecunda.

E neste instante em que a primavera aumenta a música dos ninhos, muda as árvores em taças transbordantes de flores e aviva a chama das constelações – há dois grandes elementos na maquinaria dos cenários: o trabalho e a disciplina.

Essas duas leis são essências da natureza do homem. São normas que presidem a evolução física dos seres, são elementos constantes de sua evolução espiritual.

Ditames conjugados do destino completam-se em harmoniosa sabedoria. A disciplina, princípio da ordem, torna fácil e eficaz o trabalho. O trabalho que carece do método predispõe e encaminha à disciplina e ambos concorrem como poucas virtudes para o contínuo aperfeiçoamento das almas.

Trabalho e disciplina! Trabalho, que é fecundo e útil à contribuição do homem na criação universal. Disciplina, que é pontual e honesta, respeitosa da justa hierarquia, uma lição de virtuosa renúncia ao imoderado desejo de mando que tantas vezes desvaira a razão humana... Trabalho – esforço; disciplina – dever – que energias poderosas e irmãs para a remissão de nossos erros, avivamento de nossas virtudes, depuração de nossas luzes morais!

Tão evidentes são os seus efeitos que se mostram já no próprio mundo físico: a ordem e o labor geram vigor e saúde e contribuem portanto para a felicidade. São conceitos que ninguém hoje ignora nos sanatórios, nos presídios, nos colégios – em todos os institutos de educação racional do homem.

Trabalho e disciplina – benfazejas forças que melhoram o corpo e que sublimam a alma. Concorrem, e concorreram sempre, para a grandeza dos povos, o esplendor das eras, o apogeu das civilizações. Uma é o imperativo da vida, outra um impulso divino do espírito.

Trabalho e disciplina... Escadarias que nos levam, passo a passo, em abençoada canseira a regiões mais altas, luminosas e puras.

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