Francisco da Cruz Évora
Há quem pense que o espírito não pode ter dores. Para essas pessoas, a
palavra "dor" é uma abreviatura de "dor física"; elas nunca usam o termo
"dor moral", provavelmente porque, no entender delas, dor moral não é dor
mas “sofrimento moral”, em oposição a “sofrimento físico”.
Trato particularmente do corpo e do espírito do ser humano. O espírito é uma
estrutura eterna que tem sensibilidade de consciência (interna e externa) e
vem do seu mundo de estágio ligado a um corpo fluídico, cujas partículas são
mais influenciáveis que as células, moléculas e átomos do corpo físico, ou
apenas “corpo”.
O ser humano é uma estrutura composta, grosso modo, de espírito (estrutura
Força) e corpo (estrutura física). Qualquer dessas estruturas está
vocacionada para o equilíbrio, ou normalidade, estado em que a harmonia
silenciosa fala mais alto como um "valor ideal" do seu funcionamento.
Quando, porém, chega um estímulo violento ou coativo, a estrutura
ressente-se e manifesta automaticamente esse ressentimento através da dor
(dor física, quando é o corpo que colhe esse agravo; dor moral, quando a
sensibilidade de consciência colhe tal agravo ao nível fluídico e
espiritual).
O sofrimento, como ensina o dr. Pinheiro Guedes, é sempre uma tradução
espiritual da dor em contratempo ou transtorno emocional. O mestre Luiz de
Mattos escreveu que “é o espírito que vibra, é o espírito que sente, é o
espírito que sabe amar, sofrer e lutar (…)” (ver Clássicos do
Racionalismo Cristão, vol. I – Reagindo aos sofrimentos).
Quando o espírito converte uma dor física em sofrimento, diz-se deste
"sofrimento físico"; quando é a dor moral que é convertida em sofrimento,
diz-se que é "sofrimento moral". A especificidade do sofrimento em relação à
dor é que esta é o "dado de entrada" que é processado artisticamente pelo
espírito no "dado de saída" (o sofrimento). Deve-se realçar que o espírito,
nesse trabalho interior, entra com todo o conteúdo peculiar presente da sua
personalidade, do seu "eu", daí que não pode haver dois sofrimentos iguais
no espaço e no tempo.
Há pelo menos um tipo de dor que causa inevitavelmente sofrimento: a dor da
perda de um ente querido. Nesse caso, o desprendimento da dor pode ser
conseguido mais rapidamente com o auxílio atraído das Forças Superiores, e
imediatamente virá o conforto espiritual, a luz se fará no espírito
combalido e a criatura, então, no mesmo instante, removerá tudo de
desagradável que estava na sua mente, tudo se clareará e a vida irá voltando
ao seu normal (ver Para quando os revezes chegarem, de Fernando
Faria).
Essa obra mostra também que o esclarecido pelo Racionalismo Cristão tem
condições para jamais se deixar vencer pela dor, seja qual for, física ou
moral.
Na opinião de Caruso Samel, militante na Filial Butantã que colabora neste
jornal com esclarecedores artigos, os sofrimentos são notadamente causados
por estímulos psicológicos de variada natureza, ligados aos sentimentos e
emoções (inteligência emocional), e introjectam-se na própria alma,
trazendo-lhe modificação enorme no seu modo de ver as coisas, desequilíbrio
mental, confusão etc.
(O autor é militante da Filial São Vicente, Cabo Verde)
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