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Se a evolução é lenta, é preciso caminhar sempre
Tharsila Prates Ainda há muitos absurdos acontecendo por toda parteMês passado li um livro que me mostrou de perto uma realidade que não vivi: os sombrios anos da ditadura militar (1964 a 1985). Relatos de tortura nas cadeias de todo o País, depoimentos de parentes curtidos pelo sofrimento, gente anistiada e inúmeras ações repressoras das autoridades que, só de ler, dá enjôo. Enquanto eu lia, ia pensando que as coisas hoje mudaram. Só que, pensando bem, há tantos absurdos acontecendo por toda parte que reforçam a idéia de que a evolução acontece, mas é lenta. Do mesmo jeito que, na ditadura, alguns jornalistas admitiram que a violência não estava em toda a polícia, hoje a violência também está presente, não de forma generalizada, mas está. Existem policiais que não batem; outros, com certeza. Há poucas semanas, um auxiliar de limpeza da periferia de São Paulo foi atingido por policiais enquanto ia em direção a um telefone público. Bala perdida? Foi confundido com os suspeitos que fugiram? Atiraram mesmo para matar e, depois, descobriram o engano? Sobre tortura, uma rede de televisão filmou, em abril, a ex-universitária Suzane von Richthofen algemada durante a madrugada, em São Paulo, a uma cadeira de uma forma que atesta tortura, segundo alguns advogados criminalistas. Comparado ao que aconteceu na ditadura, é "fichinha". Só que a jovem, acusada do assassinato dos pais em 2002, junto com o namorado e o irmão dele, vem de classe alta e é alvo da mídia. O que será que acontece com "reles" bandidos em algumas delegacias e cadeias do País? Em outro livro, li uma reportagem feita na década de 70, que narrava os sofrimentos da gente nordestina atingida pela fome. Até onde eu sei, isso não parece nada distante. As mamadeiras de farinha, a desnutrição e a mortalidade infantil fazem parte de um quadro ainda triste e preocupante nos Estados do Nordeste. O projeto da transposição do Rio São Francisco, que parece grandioso, até agora só trouxe polêmica, e nenhuma solução. A corrupção envolvia os porões e palácios da ditadura. E o que estamos vendo hoje no Palácio do Planalto, 21 anos depois? Cada vez que o tapete é suspenso, mais sujeira aparece. Mordomias, desvios de dinheiro público, facilitações. Como já escreveu o jornalista Zuenir Ventura, "os tempos são outros, mas uma crise lembra a outra." Se a evolução é lenta, devemos fazer de tudo para que ela aconteça constantemente. Se ela não dá grandes saltos, é preciso estar sempre caminhando. Parar é que não resolve nada. Isso serve para a política, para a polícia, para a imprensa e para todos os outros setores da sociedade. Serve para todos nós. A autora é Jornalista |
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