A nossa razão de ser

Luiz de Mattos

Por que aparecemos?

Porque é preciso reagir.

Um ideal superior, uma vontade forte, decidida nos assistem e nos conduzem.

A crise que atravessa a sociedade brasileira, demasiado séria para ser tratada e resolvida com paliativos e contemporizações, está a exigir remédios heróicos e enérgicos.

As palavras sonoras, as frases e expressões amenas e convencionais, as dissertações de mero sabor teorístico, nada valem, para nada servem no momento atual, nem podem produzir resultados práticos e positivos.

Impõe-se a verdade, fira a quem ferir, dita ora com calma, com serenidade, com frieza, ora com violência, com impiedade, com escândalo mesmo.

Mais que econômica ou financeira, é moral a crise nacional.

Os detentores do poder, os responsáveis pela pública administração, abusando da ignorância, e, pois, da credulidade do povo, tem ousado os maiores desatinos e prepotências, senão crimes, sem que até hoje hajam recebido o merecido castigo, a necessária punição.

A imprensa, em regra, vai mentindo e falsificando a elevada missão que lhe foi distribuída.

Presa por interesses nem sempre nobres, nem sempre puros, a este ou aquele grupo político, explorador do tesouro e das classes produtoras do país: a imprensa, entre nós, está desvirtuada, e de órgão, que devia ser, da opinião geral coletiva, cujas aspirações e direitos são esquecidos, transformou-se em porta-voz, em arauto de corrilhos e associações mais ou menos mercantis, em detrimento da pátria e da sociedade.

Vasto, imenso território, o Brasil, por sua população reduzida, analfabeta e disseminada, é terra propícia para competições menos corretas e menos honestas, que já fazem notar desde as relações de ordem política às de ordem exclusivamente comercial.

Sem ordem, sem justiça, caminhando em virtude do mecanismo inerente às próprias coisas, a sociedade brasileira poderá progredir materialmente, mas não moralmente, só uma bem acentuada convergência de vontade e de consciência não assumir a direção da sua devolução para a verdade, que é o sumo bem e comum.

Não alimentamos a presunção ou a veleidade de remodelar de um jato, e tão somente com intervenção jornalística, as ruínas que nos cercam. Não.

O que queremos é concorrer com o melhor dos nossos esforços para a regeneração dos costumes, regeneração fora da qual não há salvação possível para o Estado e para o individuo.

A arma predileta de que lançaremos mão para enfrentar e combater situações, como a presente, humilhantes para as nossas tradições, ofensivas para os nossos brios, prejudiciais para o nosso futuro, será a verdade franca, rude, desenvolta. Não temos partidos nem preferências pessoais.

Não lisonjeamos classes nem protegeremos seitas.

Criticaremos com independência, com vigor, mas seremos justos e imparciais; daremos a cada um o que lhe pertence.

Na montanha ou na planície olharemos com o mesmo olhar atento e observador.

Vê-se, apalpa-se, toca-se o mal-estar que nos afeta.

Todos sofrem, todos padecem, todos se queixam e, entretanto, há falta de coragem para proclamar, alto e bom som, e a luz meridiana, as causas dos nossos infortúnios e desgraças, assistindo nós impassíveis, e em atitude de resignação doentia e estéril, às calamitosas conseqüências e aos daninhos efeitos destas mesmas causas.

Democracia de fancaria, sob governos criados e mantidos pela força e pela fraude, sujeita ao arbítrio de sindicatos políticos que a oprimem e externuam, a nação brasileira, que só existe para pagar impostos e para suportar os caprichos e as violências de seus senhores, é apenas uma expressão geográfica, vazia de sentido político ou social.

Sucedendo-se uns aos outros, quer na União, quer nos Estados, por combinações e injunções reprovadas e menos consentâneas com a índole democrática do regime, e que muitas vezes não são estranhos os subalternos interesses privados da família, os nossos governantes nada têm de comum com o povo, que, na audácia, dia a dia, estimulada pela impunidade, consideram mero objeto de experiências in animes vili.

Entre governantes e governados nenhum ponto de contato, nenhuma troca ou permuta de idéias e sentimentos.

Daí a separação absoluta, a divergência, a discordância da nação com seus pseudos dirigentes e que a continuarem nos conduzirão à escravidão ou à revolução.

É, para sair disso e para evitar o terrível e ameaçador dilema, que A Razão apareceu e quer trabalhar, oferecendo o seu concurso e o seu auxílio, a sua coadjuvação a todos os homens bem intencionados e de boa vontade no combate aos grandes males que afligem a sociedade brasileira, sedenta de justiça, de direito e de verdade, únicos remédios capazes de curá-la da intoxicação, quase crônica, de iniqüidades, violências e mentiras, fornecidas e propinadas pelos maus patriotas, pelos profissionais de política, pelos muitos desprovidos de senso moral que por ali pulam e vicejam.

Realizaremos o nosso programa?

Talvez.

A lei que preside às sociedades humanas, como todas as leis da natureza, é inexorável e irredutível.

Há uma finalidade em todas as coisas: o desenvolvimento e a perfeição.

Os embaraços, os obstáculos de instantes podem atrasar, mas não entravar para sempre a marcha ascensional para o progresso e para a civilização.

Tenhamos, pois, fé e confiança.

Lutemos!

(Edição de 19 de dezembro de 1916)

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