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Eduquemos as crianças
Olga Brandão Cordeiro de Almeida
Publicado em 8 de janeiro de 1957
Difícil é a tarefa educacional nos tempos que correm, pois há um verdadeiro
desequilíbrio entre o progresso material e a formação dos indivíduos.
As pessoas, diante de um panorama de grande progresso material,
perturbam-se, extasiam-se com tantas novidades, tantas sugestões e esquecem
sua formação moral.
Que resultará desta educação de hoje, em que os adultos se portam como
crianças, dando expansão aos vícios, deixando-se envolver por sentimentos de
egoísmo, ódios e corrupção?
Pobres crianças abandonadas, que só tendes por diretriz o mau exemplo,
abrigai-vos numa tenda que se acha distante dos vendavais, onde há um herói
esquecido: essa tenda é a escola e o herói, o mestre.
A criança é, há um tempo, um organismo em formação e um espírito à espera
das luzes do esclarecimento. Compreendamo-la para educá-la; amemo-la para
entendê-la!
Criança-problema é um espírito insatisfeito que não encontra no meio em que
vive um alicerce sólido para firmar-se na conquista de seu desenvolvimento.
Criança-problema ou é a que, em casa, encontra a satisfação incondicional de
todos os desejos, ou aquela que se castiga física e moralmente pela menor
falta. No primeiro caso, revela um espírito que zomba da incapacidade dos
dirigentes, experimenta a força moral dos que a rodeiam em casa ou na
escola, à cata de quem lhe dê uma orientação segura: no segundo, mostra o
espírito revoltado que se debate entre perder a encarnação ou continuar a
marcha ascendente para o aperfeiçoamento integral.
Educar não é somente acariciar ou exclusivamente maltratar; educar é uma
delicada tarefa em que se satisfaz um desejo desde que não prejudique
ninguém, mas combatê-lo quando se desvia para o mal.
Esclareçamo-nos para esclarecer as crianças. Não basta, porém, isso; é
preciso também que lhe dediquemos amor, sentimento capaz de realizar a
perfeita harmonia entre o educador e o educando.
Não procure o magistério quem não sente atração pelas crianças.
A mulher que educa, seja mãe ou professora, deve ter equilíbrio mental e,
assim, não será uma irritada. A irritação obscurece os sentidos e só
concorre para a formação de doentes do espírito e do corpo.
Que problemática será a educação de uma criança cuja mãe a troca pelos
prazeres mundanos, deixando-a entregue a criaturas mercenárias que tratam
dela como se fosse um objeto?
Que educação será esta em que o chefe da família mente, prevarica, foge do
lar numa fúria insaciável de dar maus exemplos?
Observemos a criança em todas as reações; acompanhemos de perto seus
folguedos prediletos. Os meninos preferem brincar de “bandido", e fazem-no
com perfeição; as meninas imitam nos gestos e requebros artistas de rádio ou
cinema que primam pelo exagero.
Como coibir tais excessos que despersonalizam as crianças, se os adultos as
estimulam, permitindo que frequentem festas de gente grande, que comprem e
leiam revistas e jornais condenados, que ouçam novelas radiofônicas ou
participem dos tais programas "infantis" em que elas gingam numa imitação
perfeita de cantigas e modas estrangeiras?
Não queremos sugerir que se imponha à mocidade e à infância só lançarem mão
dos folguedos de outras épocas. Os costumes se modificam com o correr do
tempo, mas o papel do educador é conservar as tradições que se vão perdendo
e condenar excessos.
Por que não lançar mão do folclore, urna das coisas bonitas da vida
brasileira?
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